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Coisas que o tempo ensina

11 mai

Coisas que o tempo ensina

Como será a vida daqui a 20 minutos? E daqui a 20 anos? Pergunta difícil de responder, não?

Como deve ser para um atleta ver seu corpo atrofiar com o tempo? Ver que ele não responde mais às suas vontades? Por mais difícil que seja assumir isso, pela linha natural da vida, acontecerá com todos nós. Em algum momento o nosso corpo não vai responder mais como respondia aos 15, nem aos 20, nem aos 30.

Somos escravos do tempo e, como qualquer coisa, temos um prazo de validade, mas, ter um prazo de validade não nos impede de usufruir dele até o final.

Hoje tive o prazer de ver uma bailarina de seus 70 anos fazendo um solo e sua performance no palco era de uma beleza encantadora. Por mais que a sua flexibilidade e seu tônos não sejam impecáveis, ela exerceu um trabalho em cena que não deve nada a nenhuma bailarina de 18 anos. Porque, em cena não tinha só uma bailarina, tinha uma história. Por mais que seus movimentos não sejam como eram há  50 anos, hoje ela traz outras questões para o palco.

Ser mulher aos 70, ser bailarina aos 70, SER  aos 70.

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70 anos fazendo mais de 30 barras, e você quando tiver a idade dele?

Todos nós SOMOS independentes da idade.

O problema é que muitos se esquecem disso. Muitas vezes pessoas acham que suas vidas acabam porque “o prazo acabou”. É bom lembrar que o prazo não acaba nunca, enquanto há vida temos a “obrigação” de fazer dela o melhor possível. É muito importante ver toda a movimentação do pessoal da melhor idade, que está aí dando tapa na cara de muito moleque de 15 anos que tem preguiça de viver. Ver pessoas de 80 anos  dançando break sem nenhum medo de quebrar uma perna ou doer a coluna, por mera priguicinha.

No nosso meio o “tradicional” virou motivo de piada. A molecada quer fazer bonito, mas não quer treinar. Quer resultado sem caminho, sem estrada. Só estão esquecendo que o fim sem o meio em algum momento vai fazer você se perder, porque, se você não sabe de onde veio, você não tem para onde voltar. E ter para onde voltar é tão importante quanto saber para onde ir.

Exemplos de superação não faltam, mas, cada vez mais os exemplos só servem para compartilhar no Facebook e ficar popular. Perdemos a noção do que é uma referência e para que ela serve.  Somos uma jovem nação sem referência, não conhecemos a nossa história, não damos valor a quem veio antes de nós e ao esforço que eles tiveram para conquistar o que conquistaram.

Precisamos lembrar que em breve o hoje será ontem, e o ontem logo se perderá no passado, pois não estamos fazendo nenhum esforço para preservar essas conquistas. Se você pula muro hoje e se chama de tracer é porque alguém criou isso em algum lugar. Será que você conhece essa história? Não o decoreba que você aprendeu na Wikipedia, mas o porque disso tudo existir. Você ao menos já se perguntou isso? Já questionou que antes de você fazer seu vídeo e ficar pop no seu grupinho, outras pessoas fizeram vídeos com outros motivos? E que outras pessoas trabalharam e ainda estão trabalhando para que você não seja chamado de maluco, ou ladrão quando vai treinar na rua?

Precisamos aprender a questionar, a procurar, a entender que esse be-a-bá que te deram quando você começou a treinar não é suficiente para te manter praticando. Porque, se você quer ser como a bailarina que aos 70 anos ainda dança, você tem que saber porque você dança.

Procure o seu meio, o seu caminho, mas entenda que outros já foram criados e não custa nada respeitá-los. Você não precisa trilhar o mesmo caminho que já foi trilhado, mas precisa sim entender que caminho é esse.

Se você quer resultados efetivos, notórios e permanentes, faça por onde. Não é treinando no final de semana que você se torna um tracer. Não é vendo vídeo no Youtube que você vai se tornar um tracer.

Procure o seu caminho e entenda que muitas vezes vai doer, muitas vezes você vai querer desistir, muitas vezes o próximo passo parece inalcançavél, mas só quando você conseguir passar por isso você vai entender o “porquê”. Descubra o seu porquê e abrace ele com unhas e dentes, pois ninguém nunca vai poder te tirar isso. Talvez assim você possa ser uma bailarina aos 70, ou talvez só aos 70 você entenda o que é ser um tracer.

Tô sem a Pujança!

4 mai

Vídeo lançado recenemtente no perfil do nosso amigo JJ do Rio, e passa um sentimento que eu tinha nos vídeos mais antigos de parkour. Nada cinematográfico, apenas curtição e companheirismo.

Algumas zuações, risadas. Esse é o tipo de vídeo que da vontade de passar o final de semana todo treinando com os amigos.

Detalhe para o backflip parado do JJ.

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Parkour não é Religião

3 abr

Religião: “Culto prestado a divindade; Crença na existência de uma ou mais forças sobrenaturais; reverência às coisas sagradas; observância dos preceitos religiosos, etc.”.Obviamente que não estou subjugando a capacidade de ninguém (até porque Google está acessível para todos), mas vamos ao que interessa.

Começar esse texto com a definição da palavra religião já reduz meu trabalho no mínimo ao meio, mas, o que eu quero com isso?

Tenho visto com uma frequência assustadora pessoas influentes no cenário Parkurístico afirmando categoricamente (ou simplesmente insinuando) que Parkour é religião. Bem, para isso precisaríamos enquadrá-lo em uma série de itens pelos quais ele nem passa perto.

Comecemos do principio:

  1. Apesar dos aclamados esforços para a canonização do DeusVidBelle está longe dele ser beatificado ou coisa que o valha, isso se estivermos seguindo os padrões cristãos.
  2. Por mais exótica, libertadora e pessoal que a sua experiência com Parkour seja, ela não é sobrenatural
  3. O fato de o Parkour ter filosofia própria não o caracteriza como religião. Esse ponto em especial eu quero destrinchar.

As artes marciais têm filosofia própria e nem por isso são religião. Não é porque você “sacraliza” o seu treino que ele se torna uma religião. Por mais difícil que seja entender isso, o Parkour é uma prática corporal com conceitos filosóficos, quer você só siga os “preceitos” filosóficos, quer você só treine físico. Por mais enriquecedor e agente de mudança que ele seja isso não o tira da categoria de prática corporal. Seus conceitos filosóficos, sua expansão sócio-econômica-cultural são parte inerentes disso.

Ser honesto, altruísta, é dever de todo cidadão e não do tracer especificamente. Se nós pregamos isso é porque faz parte da nossa cultura micro, que faz parte da nossa cultura macro. Entendam cultura micro como cultura do Parkour e cultura macro como a cultura social na qual o Parkour está inserido. Então, no primeiro plano, somos tracers fazendo a coisa certa e no segundo somos cidadãos fazendo que a nossa sociedade chama de função de cidadão, nada mais.

Por mais que nos sintamos especiais porque treinamos, por mais que o Parkour tenha mudado as nossas vidas, não somos melhores nem mais especiais simplesmente por que enxergamos o mundo de outra forma.

Somos tão agentes de mudança quanto um ciclista que decide não poluir o meio em que vive; quanto uma dona de casa que recicla o seu lixo porque quer viver num lugar melhor e assim por diante.

Nós fazemos o que achamos certo, isso não é exclusividade da nossa prática. Fazer o que é certo é dever de todo e qualquer cidadão.

Agora vocês devem estar se perguntando o porquê de eu tomar tão fervorosamente a defesa disso.

Então, o primeiro ponto que eu faço questão de levantar é: A prática não foi criada com fins nem meios religiosos, ela nunca teve esse caráter, entretanto, a partir do momento em que ela é defendida como tal, ela cria uma segregação imediata. “Ou você faz o Parkour certo, ou você não vai para o céu”. Tenhamos todos muito cuidado com os nossos xiitismos, pois, se alguma religião estiver certa, estamos mais de 90% da população condenados. Afinal, para uma estar certa, outras terão que estar erradas.

Bem, é certo que para muitos eu devo estar elucubrando sore o óbvio, mas tomo a defesa da prática para que ela continue a ser o que sempre foi: Uma prática.

Tudo bem, a dificuldade de conceituar Parkour é notória, mas prestemos muita atenção, pois, apesar dessa dificuldade, existem conceitos que não são aplicáveis e que quando aplicados desconstroem completamente o sentido da prática.

Praticar Parkour de maneira “religiosa” é completamente diferente de praticar o parkour-religião.

Parkour, Mídia e Arte

3 set

Parkour, Mídia e Arte

Com os avanços tecnológicos, o advento da internet, a globalização, o mundo ficou muito mais rápido, as informações hoje são veiculadas em tempo real, qualquer coisa pode virar notícia em uma fração de segundo. Vemos cada vez mais virais aparecendo na mesma velocidade que desaparecem e, sem dúvida, o Parkour é fruto disso. Sem a internet, sem o YouTube, ele teria demorado muito mais tempo para se tornar uma “arte pop”, mas o Parkour é tão fruto desse momento quanto a Lady Gaga ou qualquer outro artista ou movimento contemporâneo em seus quinze minutos de fama.

O Parkour está vivendo seu momento na frente dos holofotes (verdade que quase em decadência). Fato é que esse momento vem durando bem mais que quinze minutos. Desde que surgiram os primeiros filmes com a prática, do mais underground até o mais pop, o que é o caso do 13º Distrito e sua sequência que caíram no gosto popular e sabidamente fez com que muitos jovens iniciassem a pratica (afinal, muitos tracers hoje conhecidos e respeitados começaram após assistir a um desses filmes). Não podemos esquecer o destaque importante que o Parkour recebeu da rainha do pop (Madona) ao fazer um clipe com um dos maiores ícones da prática, Sebatien Foucan, o que acabou por abrir um leque de visibilidade para o mundo todo.

Não são poucas as inserções do Parkour nas artes cênicas, desde o cinema (com o 13º Distrito, 13º Distrito: Ultimato, Yamakasi: Os Samurais dos Tempos Modernos, Yamakasi: Filhos Do Vento, 007: Cassino Royale) e televisão (com os seriados, The Phantom e The Misfits,) ao teatro, dança e circo.

A espetacularização dessa arte logo se tornou pública e quando falo de espetacularização falo de Parkour nu e cru. Existem muitos artistas interessados nas possibilidades cênicas dessa prática (inclusive a pessoa que vos fala).

Nas artes cênicas existe uma busca incansável pelo novo, ou pela nova forma de se fazer o velho, e nesse contexto o Parkour é uma prática corporal extremamente artística, que possui variadas possibilidades, desde ser usada como meio para um treinamento específico de um ator ou dançarino, até ser usada como fim de uma performance dos mesmos.

A partir do momento em que enxergamos o Parkour como arte ele muda completamente de forma, (aqui cabe uma ressalva, qualquer coisa pode ser entendida como arte, desde que seja tratada como tal, lembremo-nos da privada de Duchamp). Pois, não necessariamente os atores, dançarinos, etc… ARTISTAS, o utilizarão para a vida, eles podem somente ser treinados para um fim específico, sem necessariamente “aprender” os conceitos filosóficos da prática em si.

É importante lembrar que, geralmente, antes de se fazer um filme, uma peça, um clipe, etc… Por via de regra, se faz uma pesquisa “aprofundada” de todos os elementos do mesmo. Então, raramente veremos o Parkour simplesmente como um apelo estético, mesmo que pareça isso à primeira vista. Obviamente que sabemos que existem pessoas que irão investir no Parkour porque sabem que tudo o que é pop gera público e conseqüentemente gera dinheiro (só tracer não ganha dinheiro com o Parkour, mas isso é assunto para outro texto).


Nem sempre (ou não na maioria das vezes) quando vemos o Parkour em algum filme, clipe, peça, ou seja lá o que for, ele vem com uma legenda dizendo “isso aqui é, isso aqui não é”. A arte busca a melhor forma de fazer, a melhor forma de mostrar e isso tende a um hibridismo muito forte, e, possivelmente, só as pessoas que já conhecem discernirão: “isso é Parkour, isso não é Parkour”. Então, é natural que um leigo, ao assistir a “13º Distrito”, diga que Jackie Chan já fazia isso, porque ele não entende o tecnicismo da pratica, e é bom que ele não entenda. Ele precisa ser encantado e tocado, o resto é bônus. Assim como se você não for um médico, dificilmente você vai entender a techné de um seriado que fala do dia a dia de médicos e seus pacientes. Obviamente que em alguns momentos podem existir erros grotescos, que nos fazem querer matar o diretor, pois nem sempre as pesquisas são bem feitas e muita coisa pode ser distorcida.

Pessoalmente, vejo com muito bons olhos a forma como a prática vem se tornando presente em diferentes mídias, é uma possibilidade de difundi-la e torná-la respeitada. Seria uma incoerência dizer que filmes como “13º Distrito”, jogos como Mirror’s Edge, clipes como o Jump da Madona, espetáculos como os do Cirque Du Soleil não contribuíram para o crescimento da prática, melhorando também a imagem dos praticantes. Se somos fruto do meio, que o meio continue dando bons frutos.

5o Encontro Mineiro de Parkour – Fazendo História

12 ago

Todos sabemos que o encontro mineiro é famoso por nos proporcionar grandes visitas de personalidades famosas do Parkour, como Thomas ‘Des Bois’ , Blane, Vigroux, e toda essa cavalaria de peso do Parkour Mundial, pessoas com o nome mais do que fincado na história de todos que começaram a treinar a mais tempo.

Mas desta vez a equipe do PKMAX superou todas as nossas expectativas para o encontro mineiro.  Nos dias 10 e 11 de setembro o objetivo é trazer os dois nomes (dos 3 que considero) mais fortes na história do Parkour, Chau Belle Dinh e Williams Belle. Esses dois são precursores de tudo o que fazemos hoje, talvez os mais antigos praticantes ainda ativos na história da “Art du Deplacement”.

Para que isso aconteça, é necessário um apoio de toda a comunidade, para que apoie o projeto comprando uma das quotas definidas no catarse.me e colabore com o grande custo que é trazer os Yamakasi para o nosso país.

Então se você tem um trocado que pode ajudar em uma das quotas pequenas, é filho de pai rico e pode pagar um pouco mais para aumentar a probabilidade da meta ser alcançada, converse com ele e explique a importância, se é uma empresa e quer ter seu nome em um dos maiores e melhores eventos da cena de Parkour do país, está é uma grande chance. Participem!

Conheça o projeto

‘We start together, we finish together”

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Existe vida além dos muros

18 jul

Existe vida além dos muros

Mudanças comportamentais são causadas por diferentes motivos, geralmente de tempos em tempos existe uma grande “onda” que influencia toda uma geração, desde a forma como se vestir até a maneira de falar. Os jovens tendem a ser os mais influenciados, pois frequentemente essa “onda” vem com uma ideia transgressora como o movimento punk, grunge ou hippie e, convenhamos que adolescentes buscam a transgressão com unhas e dentes. Entretanto, a partir dos anos 2000 essa transgressão mudou de forma e os jovens entraram numa linha de “serem puros para serem bons”, e é aí que entra o Parkour nessa história. Qualquer coisa pode influenciar no nosso comportamento, mas algumas podem modificá-lo para o resto da vida.

Quando começamos a praticar passamos a olhar o mundo de outra forma, é o momento da descoberta. Todo o meio à nossa volta muda, a arquitetura que antes tinha valor apenas estético/histórico passa a ser objeto de exploração.  Obstáculos tornam-se atrativos e os olhos brilham só de olhar para um simples corrimão. Esse primeiro momento tende a vir com uma busca por um estilo de vida mais saudável. Não são poucos os relatos de tracers que mudaram completamente as suas vidas por causa do Parkour, desde aqueles que pararam de beber, até os que pararam de fumar ou de comer carne. Os exemplos são muitos e de tipos bem variados. Essa busca por um equilíbrio entre corpo e mente gera tracers mais conscientes de si e do meio a sua volta.

Buscar clareza de sentidos, equilíbrio e força é extremamente importante nesse processo de descoberta, mas é fundamental que isso não vire uma obsessão e não entremos numa bolha, pois existe vida além dos muros e o Parkour pode até ser “uma forma de salvação”, mas não é a única. É bom lembrar que cada um tem o seu processo, que não necessariamente é o mais bonito ou saudável, mas que mesmo assim deve ser respeitado. Somos fruto daquilo que fazemos, dizemos e sentimos e no Parkour não é diferente. A forma como você se relaciona com a prática é a forma como a prática se relaciona com você.

Espero que essas mudanças que o Parkour vem causando perdurem e tornem-nos menos sedentários; ajudem-nos a enxergar o mundo sem tanto medo — fato que não vamos salvá-lo (pessoalmente não sei se algo um dia conseguirá essa proeza, sou pessimista demais para crer nisso), mas nada nos impede de tentar tonar as pessoas um pouco melhores para ele. Que essa “onda” torne-se um tsunami. Evoé!

O que te faz pular?

13 jul

O que te faz pular?

Tem aproximadamente dois anos que vou pelo menos uma vez por mês a um lugar onde eu sempre treino perto da minha casa. Desde que diminui meu ritmo de treinos perdi a coragem de fazer um Saut de Bras/Cat leap que sempre fiz com muita facilidade, inclusive quando “descobrimos” este salto eu fui o primeiro a fazer com muita confiança e sangue no olho.

Nesses dois últimos anos eu praticamente perdi a coragem para fazer esse salto, nunca tinha aquela vontade de fazer, nada me fazia pular daquele muro. O salto era de um muro para o outro no mesmo nível, nada de complicado, nada de difícil nisso. Eu simplesmente não me senti apto a fazer.

Enquanto eu parava para analisar o salto eu via minha mão escorregando do outro lado. Conseguia até sentir os cortes nos dedos causados pelas pedrinhas do muro chapiscado. Imaginava que era pesado demais para aquela parede, e que provavelmente o muro ia ceder quando eu segurasse do outro lado. Eu pendurava, balançava e testava tudo. Tentava me assegurar de era seguro e que não me machucaria. Pensava em todas as possibilidades de falha do salto, tudo que poderia dar errado, eu estava com medo.

Comecei fazendo de uma lateral poucos centímetros mais perto do que o salto que eu verdadeiramente queria fazer, mas nada disso funcionava. Passei quase dois anos com esse medo e pensando que não tinha motivos para fazer o salto, não valia o risco.

Nesse domingo fui ao parque com um amigo e acabamos treinando alguns saut de bras em outro ponto, então fomos para o salto que eu tinha tanto medo de fazer. Ficamos lá pensando e conversando. Então coloquei a meta de que faria aquele salto de novo em um mês. Voltaria aos meus treinos regulares, recuperaria minha confiança e faria. Ele riu de mim e disse “achei que faria hoje”.

Ficamos por volta de 30 minutos discutindo sobre o salto e os motivos que eu achava que não conseguiria faze-lo. Depois de muito conversar ele decidiu que tentaria. Fiquei feliz por ele tomar essa iniciativa e disse que provavelmente tentaria se ele tentasse. Eu não achava que ele iria tentar.

Fui lá para baixo ficar aparando a queda para caso acabasse dando errado. Ficamos lá um bom tempo e eu bem confiante de que ele não tentaria, e eu iria pra casa engolindo minha vergonha e meu medo, eu estava virando um bundão. No momento eu não estava racionalizando comigo mesmo o motivo de não querer fazer, eu só achava que iria me machucar.

Quando menos esperava, o Wendely saltou e a mão dele não fixou na parede e ele deslizou. Achei que ele não fosse tentar de novo. Subiu no muro, pensou por mais alguns minutos e saltou, agora conseguindo. Ficou brincando comigo, e então eu teria que tentar o salto como combinado.

Subi para avaliar a possibilidade, fiquei rindo falando que não faria. Perguntei até como eu poderia pagar o combinado de outra forma. Fiz todas essas brincadeiras de quando não temos culhões para fazer o que prometemos. Fiz alguns testes, pulei da lateral, desci e subi. Testei o muro e fiquei parado olhando para o muro por um bom tempo. Até que parei de rir.

Parei  para pensar de verdade no salto. Em como eu fazia tantos saltos antes e agora estava com medo. Em toda atitude que sempre tive, em toda coragem e sangue no olho.  Pensei em todos os treinos que fiz nesses oito anos e na capacidade física que tenho. Pensei em todo o preparo e quantas coisas mais difíceis já tinha feito. Parei para pensar que eu não conseguiria lidar novamente comigo mesmo.  Mais difícil do que lidar com os amigos fazendo brincadeiras, com um ralado ou uma queda, é a vergonha de não ter nem tentado. Quando percebi, estava novamente decidido a fazer o salto. Só precisava considerar algumas coisas e fazer, era isso. Sequei minhas mãos que já estavam suadas na calça, e tirei a poeira do tênis.

Enquanto respirava olhava fixamente para onde minhas mãos deveriam pegar, o suor já pingava e meu coração batia acelerado. De repente como de forma inesperada eu olhei para o outro lado e vi minhas mãos chegando, assim eu pulei.

Cheguei do outro lado de forma firme, os pés cravaram no muro e as mãos também, e em menos de um segundo já estava sentado no muro sorrindo, com a mente vazia e o coração limpo. Um sentimento de emoção e conquista que eu não me proporcionava através do Parkour há muito tempo agora tomava conta de mim. Nesses últimos dois anos que vim treinando esporadicamente só para não perder algumas habilidades eu tinha esquecido como eu podia me desafiar e me sentir bem com o parkour.

O que me fez pular foi não conseguir lidar com a vergonha, com o meu ego, comigo mesmo. Saber que foi vencido por algo que não existe e que está só na sua cabeça. Ao contrário da luta que você da a cara a tapa, bate e apanha, ganha e perde, sendo que isso não depende só de você é uma coisa. Perder para você mesmo é algo que eu realmente não soube e não sei lidar. Isso é o que me empurra, é o que me faz continuar.

Conforme ficamos mais velhos o nosso medo aumenta. Cada erro pode significar uma perda maior. Um braço quebrado representa faltar no trabalho e o risco de perder o emprego. Qualquer errinho pode representar todo seu mundo indo por agua abaixo. O que me faz pular é a confiança nas minhas habilidades e no meu treino, a vontade de mostrar pra mim mesmo que sou capaz e que eu posso.

Pessoas têm motivos diferentes para fazer as coisas. Quando você está lá no alto daquele muro pronto para fazer um salto perigoso que nunca fez antes, o que te motiva? O que faz você pular?

Depois que fiz o primeiro salto, fiz várias e várias outras vezes, como se fizesse isso desde sempre, sem medo e sem preocupações. Vai entender. O Wendely sempre repetindo “quem vê você fazendo agora, não acreditaria no que eu vi”. O do vídeo obviamente não é o primeiro salto, mas é para ilustrar o dia e o momento.

Entrando na Rotina

9 jul


Diferenças culturais exercem grande influência na “evolução” dos tracers. Por que tendemos a achar que orientais fazem tudo melhor? Essa resposta costuma doer no nosso brio, mas ela é bem objetiva: Determinação e rotina. Pois é, nós brasileiros, culturalmente, temos o “hábito” de ser menos objetivos, tendemos a reclamar demais e fazer de menos. Crescimento e melhora são diretamente proporcionais à sua determinação e empenho para que isso aconteça. Então, tracers geralmente se empolgam muito no início, mas, com o decorrer do tempo, querem respostas imediatas, buscando o nosso clássico jeitinho. Só que, feliz ou infelizmente, não existe um jeitinho para tudo e, quando esse jeitinho existe, com ele vem o ônus.

Qual a diferença de um tracer, para um artista circense, ou um artista marcial? Em geral, apenas a prática em si é o que os difere, mas a entrega para ser bom em qualquer uma delas tem de ser real e “total” (entendendo total como dentro dos seus limites). Assim, vemos com frequência associações dessas práticas a religiões, o que alguns enxergam como verdadeiro exagero, entretanto, se pararmos para pensar um pouco, é apenas outra forma de enxergar a religião. Não estou falando daquela fé cega e sem reflexão, mas da dedicação e seriedade com que tratamos a prática em si. Tratar a prática de forma “religiosa” não significa tratá-la como religião, mas encará-la com religiosidade. Essa percepção é delicada e, muitas vezes, passa despercebida. Importante lembrar que isso não inviabiliza a ludicidade nem o hedonismo inerentes à prática, mas os encara de outra forma.

Respeitamos o outro, o nosso espaço de treino e o nosso corpo, que é o nosso templo, afinal, não existe mente sã sem corpo são e vice versa. Assim sendo, por que vemos uma dissociação da prática disso? Porque, de um modo generalista, os jovens vêm perdendo a noção do que é respeito a si e aos outros, buscando a prática apenas como mais uma forma de se sobressair.  Assim, vemos cada vez mais tracers de final de semana, sem entender o que estão fazendo ou por que estão fazendo, pois são apenas reprodutores de uma prática vazia, sem sentido, sem responsabilidade nenhuma com seu corpo ou com o dos outros, porque, além de praticarem, muitas vezes reproduzem um conhecimento que não têm, e o que vemos é uma sucessão de lesões cada vez piores, já que estão “todos” à procura do jeitinho, da forma mais fácil.  A arte do deslocamento, aos poucos vai se perdendo, deixando de ser “arte” para cada vez mais se tornar deslocamento e, na maioria das vezes, nem isso.

O problema é que esse perfil se reflete em todos os aspectos da cidadania do povo brasileiro (se é que sabemos, o que é cidadania). Somos reclamões, pois reclamamos de tudo: Dos políticos corruptos, do preço da gasolina, da cesta básica e em contrapartida estamos sempre atrás da maneira mais simples; reclamamos tanto, mas agimos da mesma forma. E estamos fazendo isso com o Parkour, sendo que, ao não fazermos nada, estamos criando uma ausência de futuro, ou, sem percebermos, a prática está evoluindo (entendendo evoluir no seu sentido literal, como mudança), só não posso afirmar que essa evolução é para melhor ou para pior. Se existe uma solução pra isso, sugiro que deixemos essa preguiça de lado, pois nem toda rotina é ruim e, ao nos organizarmos estamos criando talvez um futuro melhor.

Esse comodismo brasileiro não surgiu do nada, não somos incentivados a pensar. A educação depois do golpe militar até hoje não conseguiu se reestruturar. Vivemos em um país de analfabetos funcionais, não temos criticismo e estamos ficando cada vez mais obesos. A educação esportiva no Brasil soa como piada. Lá fora você tem educação em tempo integral, as crianças são obrigadas a fazer algum esporte. E aqui? Jogam uma bola no meio da quadra (quando tem quadra) e apitam um babinha. Enfim, é obvio que o problema é muito mais profundo, mas não adianta só ficarmos confortáveis nas nossas poltronas pontuando os problemas. É hora de arregaçarmos as mangas e começarmos a resolver.


Oxente!

3 jul

Sinto um prazer muito grande quando vejo vídeos brasileiros bons e bem feitos. É importante reforçar um pouco esse patriotismo e criar ídolos nacionais para quem está vindo por ai. Somos parte de uma atividade muito nova e com poucas referências, e quem vem por ai não sabe em quem se espelhar, aonde buscar conhecimento e informação.

Freqüentemente posto e vou postar vídeos nacionais que apresentem para quem lê o blog e não conhece esses caras, quem são as referências nacionais no assunto.

Com vocês Edi.

blah

Saindo do Sedentarismo (Ciclo Negativo)

1 nov

Muitas pessoas não praticam exercícios. Seus motivos são variados, mas
podemos pontuar duas possibilidades básicas: a falta de tempo e o
cansaço. Logo, com seus motivos estabelecidos, o sedentário entra no
que podemos chamar de Ciclo Negativo. Nesse Ciclo o indivíduo cansado
ou sem tempo não treina, conseqüentemente, reduz suas capacidades
físicas e mentais, ficando menos funcional por uma ausência de
estímulo. Com o passar do tempo, passa a se cansar cada vez mais
facilmente, podendo levar mais tempo para concluir uma tarefa, pois
durante esse tempo sem estímulo, seu suprimento de energia se tornou
cada vez mais limitado, gerando falta de ânimo e o reinício do mesmo
ciclo. Com o passar de meses e anos, a situação se agrava ainda mais.
Essas duas possibilidades são congruentes no termo “Falta de
iniciativa”.

Pois então, se você é sedentário e não quer permanecer nessa situação,
há uma enorme infinidade de atividades em que você pode ingressar
(parkour é uma delas). Para escolher uma atividade, procure por
informações, pessoas sérias que pratiquem há mais tempo, e aulas
experimentais, para que possa então examinar se há alguma afinidade.
Mas não reduza sua escolha apenas pelo primeiro contato. Pois é lógico
que não vai chegar em sua aula de parkour e “ownar*” o seu instrutor,
e ser indisciplinado apenas fará com que você não realize atividade
alguma. (Se estava pensando assim, recomendo que retorne ao primeiro
post desse blog e leia um post por dia!).

Um fator importante, não só a escolha da atividade, mas também para
definir como você vai vivenciá-la, é estabelecer seus MOTIVOS. Se você
escolheu ingressar no Parkour, defina o que pretende ganhar e saiba o
que certamente irá perder. Claro que há escolhas lógicas! Como quando
você escolheu ter uma vida mais saudável, no pacote veio: boa
alimentação, exercícios, bom sono, etc. Mas há escolhas mais
especializadas que podemos chamar de metas, por exemplo: “Quero correr
40 km todos os dias!” Logo vou estimular mais as fibras curtas e menos
as longas, ficando com um corpo mais esguio e definido.
Mas se você pretende mesmo correr 40km todos os dias, tem que estar
atento ao fator “tempo”. Na nossa vida podemos definir como treino
ideal um treino intenso e de curta duração, gerando o máximo
aproveitamento. Para solucionar esse problema devemos nos organizar. O
homem inventou um item com a finalidade de facilitar essa organização.
Chama-se “Agenda”. Use-a da melhor forma possível e anote tudo,
dividindo o seu dia em fatias, com horário de início e fim de cada
atividade. Defina até mesmo o sono e o descanso.

Se você já viu seus motivos, escolheu suas atividades, definiu suas
metas, e organizou o seu tempo, está na hora de saber que: Não vai ser
fácil! Pois para chegar ao Ciclo Positivo será necessária uma intensa
força de vontade no movimento inicial. Na busca por sair do “ponto
inicial”, devemos procurar nos sentir com energia para treinar e volta
a treinar nos dias seguintes. Lentamente acabará se tornando mais
ativo. Sendo mais funcional e mais capaz, e aumentando sua capacidade
física, efetuará suas atividades diárias com pequena parte de suas
capacidades gerais, sobrando uma reserva energética superior àquela
que tinha quando não treinava.

  1. Ownar*: Vencer facilmente, mostrar como se faz, destruir, esmagar.