Relatos sobre o Partour

12 jul

Relatos sobre o Partour

Todos certamente sabem que foi realizada a 3ª edição do Partour Brasília nos dias 23, 24 e 25 de junho. Agora poderia iniciar uma postagem que falasse sobre a programação e seus pontos positivos e negativos. Mas creio que algo assim pode ficar para depois, pois mais importante é trazer aos olhos dos praticantes os verdadeiros “presentes” que obtivemos. As verdadeiras pérolas que encontramos no encontro. Vou resumi-las em duas palavras, falar rapidamente sobre elas e aguardar uma oportunidade futura para o aprofundamento sobre cada uma separadamente.

Sinergia: Entendo que essa é a palavra que devemos buscar num encontro.

Observar uma grande quantidade de pessoas envolvidas naquilo por um ponto em comum, alinhando seus objetivos e aprendendo com o outro. Isso é simples de ser visto num encontro, e esse é o ponto máximo. Todos que estiveram no partour 2011 vão se lembrar do momento em que ascendemos uma fogueira, tomamos caldo e nos divertimos ao som do violão. Esse foi o ponto máximo que representa o encontro, pois o pico onde dedicamos 1 ano de trabalho e litros de suor se tornou palco para algo maior que a simples movimentação. Algo repleto de companheirismo e diversão. Ali sim, as vontades, objetivos e desejos estavam alinhadas no mesmo rumo! Não posso deixar de citar o pessoal de Goiânia e nossos amigos de Belém, que tornaram esse evento algo muito divertido e despretensioso.

Materialização: Chamo de “materialização” o momento em que pegamos algo não-físico e o tornamos físico, concreto, palpável, e passamos a dar valor nisso!

Quando você faz séries de algum movimento, pode contar mentalmente, ou materializar essas séries em pequenas pedras, gravetos, etc. É intrínseco da nossa cultura como tracers os “rolos” que fazemos com nossos objetos pessoais (tênis, calças, blusas ou quaisquer outras coisas). Durante o evento, os rolos ocorreram constantemente, mas em alguns momentos, esses objetos materializaram o parkour! Não eram como produto de escambo, mas objetos de respeito e honra, seja por quem usou, ou pela história que carrega. O momento culminante disso foi logo quando o evento terminou, estávamos na 214 norte rumo ao aeroporto e começamos a trocar presentes que, aparentemente, não tinham valor algum. Eram calças rasgadas, blusas de frio velhas, camisetas, etc. Nesse momento éramos 8 pessoas de 3 estados diferentes que conviveram por alguns dias sem pretensão alguma, e no ar havia uma emoção e consideração.

Indico a vocês, amigos leitores, que provem disso! Valorizem algo e treinem com um objeto. Materializem suas histórias, sua dedicação e seu suor nele! E busquem alinhar seus pensamentos objetivos com os outros. E quando encontrarem uma pessoa que mereça a honra de carregar esse objeto, promova a sinergia! Conte as histórias em que esse item o acompanhou, fale do valor que ele tem, e entregue o item nas mãos dessa pessoa! Caso receba algo, dê valor como honra a pessoa que lhe deu!

Para completar, promova a sinergia com as pessoas e materializem esse estado de espírito, não só em objetos e presentes, mas em consciência e atitude!

Entrando na Rotina

9 jul


Diferenças culturais exercem grande influência na “evolução” dos tracers. Por que tendemos a achar que orientais fazem tudo melhor? Essa resposta costuma doer no nosso brio, mas ela é bem objetiva: Determinação e rotina. Pois é, nós brasileiros, culturalmente, temos o “hábito” de ser menos objetivos, tendemos a reclamar demais e fazer de menos. Crescimento e melhora são diretamente proporcionais à sua determinação e empenho para que isso aconteça. Então, tracers geralmente se empolgam muito no início, mas, com o decorrer do tempo, querem respostas imediatas, buscando o nosso clássico jeitinho. Só que, feliz ou infelizmente, não existe um jeitinho para tudo e, quando esse jeitinho existe, com ele vem o ônus.

Qual a diferença de um tracer, para um artista circense, ou um artista marcial? Em geral, apenas a prática em si é o que os difere, mas a entrega para ser bom em qualquer uma delas tem de ser real e “total” (entendendo total como dentro dos seus limites). Assim, vemos com frequência associações dessas práticas a religiões, o que alguns enxergam como verdadeiro exagero, entretanto, se pararmos para pensar um pouco, é apenas outra forma de enxergar a religião. Não estou falando daquela fé cega e sem reflexão, mas da dedicação e seriedade com que tratamos a prática em si. Tratar a prática de forma “religiosa” não significa tratá-la como religião, mas encará-la com religiosidade. Essa percepção é delicada e, muitas vezes, passa despercebida. Importante lembrar que isso não inviabiliza a ludicidade nem o hedonismo inerentes à prática, mas os encara de outra forma.

Respeitamos o outro, o nosso espaço de treino e o nosso corpo, que é o nosso templo, afinal, não existe mente sã sem corpo são e vice versa. Assim sendo, por que vemos uma dissociação da prática disso? Porque, de um modo generalista, os jovens vêm perdendo a noção do que é respeito a si e aos outros, buscando a prática apenas como mais uma forma de se sobressair.  Assim, vemos cada vez mais tracers de final de semana, sem entender o que estão fazendo ou por que estão fazendo, pois são apenas reprodutores de uma prática vazia, sem sentido, sem responsabilidade nenhuma com seu corpo ou com o dos outros, porque, além de praticarem, muitas vezes reproduzem um conhecimento que não têm, e o que vemos é uma sucessão de lesões cada vez piores, já que estão “todos” à procura do jeitinho, da forma mais fácil.  A arte do deslocamento, aos poucos vai se perdendo, deixando de ser “arte” para cada vez mais se tornar deslocamento e, na maioria das vezes, nem isso.

O problema é que esse perfil se reflete em todos os aspectos da cidadania do povo brasileiro (se é que sabemos, o que é cidadania). Somos reclamões, pois reclamamos de tudo: Dos políticos corruptos, do preço da gasolina, da cesta básica e em contrapartida estamos sempre atrás da maneira mais simples; reclamamos tanto, mas agimos da mesma forma. E estamos fazendo isso com o Parkour, sendo que, ao não fazermos nada, estamos criando uma ausência de futuro, ou, sem percebermos, a prática está evoluindo (entendendo evoluir no seu sentido literal, como mudança), só não posso afirmar que essa evolução é para melhor ou para pior. Se existe uma solução pra isso, sugiro que deixemos essa preguiça de lado, pois nem toda rotina é ruim e, ao nos organizarmos estamos criando talvez um futuro melhor.

Esse comodismo brasileiro não surgiu do nada, não somos incentivados a pensar. A educação depois do golpe militar até hoje não conseguiu se reestruturar. Vivemos em um país de analfabetos funcionais, não temos criticismo e estamos ficando cada vez mais obesos. A educação esportiva no Brasil soa como piada. Lá fora você tem educação em tempo integral, as crianças são obrigadas a fazer algum esporte. E aqui? Jogam uma bola no meio da quadra (quando tem quadra) e apitam um babinha. Enfim, é obvio que o problema é muito mais profundo, mas não adianta só ficarmos confortáveis nas nossas poltronas pontuando os problemas. É hora de arregaçarmos as mangas e começarmos a resolver.


Oxente!

3 jul

Sinto um prazer muito grande quando vejo vídeos brasileiros bons e bem feitos. É importante reforçar um pouco esse patriotismo e criar ídolos nacionais para quem está vindo por ai. Somos parte de uma atividade muito nova e com poucas referências, e quem vem por ai não sabe em quem se espelhar, aonde buscar conhecimento e informação.

Freqüentemente posto e vou postar vídeos nacionais que apresentem para quem lê o blog e não conhece esses caras, quem são as referências nacionais no assunto.

Com vocês Edi.

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De mulher pra mulher…

29 jun

fotos de girlparkour.com

Recentemente levantei uma breve pesquisa sobre as mulheres que treinam Parkour e há quanto tempo treinam. Pesquisei sobre o índice de evasão e, o que pude perceber é que existe muito folclore sobre o tema de um modo geral.

Primeiro: mulheres deixam a prática tanto quanto homens, a diferença crucial é que como existem menos mulheres que treinam, ao sair uma mulher, temos a impressão de que a evasão foi muito maior. Mas por que temos tão poucas mulheres treinando?

“Iniciar no Parkour é fácil, o difícil é continuar” — Isso todo mundo já sabe. O que difere entre homens e mulheres é que é a verdadeira questão. De um modo geral, temos uma pequena diferença no perfil dos praticantes. Mulheres tendem a começar com um pouco mais de idade, em torno dos 17 aos 19 anos no mínimo, enquanto homens geralmente começam mais novos, por volta dos 14, 15 anos. Você deve estar se perguntando: E daí? Pois bem, essa sutil diferença muda quase tudo. Com mais idade as prioridades são outras, como faculdade, trabalho, filhos… Isso gera um desgaste e reduz demasiadamente o tempo. Dessa forma, para vingar nos treinos é preciso muito mais do que habilidades corporais. É necessário ter muita força de vontade.

Outro ponto forte para a desistência de algumas mulheres é uma constante queixa de preconceito e assédio por parte dos garotos. Esse ponto em especial, apesar de delicado é raríssimo, pois, geralmente, as mulheres são muito bem recebidas e incentivadas a continuar e, apesar de existirem histórias, não conheço nenhum caso de preconceito explicito, pelo menos não por causa do sexo do praticante. O que vejo é muita menina preguiçosa jogando a culpa nos garotos para parar de treinar.

Todo primeiro passo é difícil e geralmente leva ao chão. A questão é saber levantar, porque o caminho é tortuoso e temperado com pedregulhos. Portanto, salte.

fotos de girlparkour.com

Há algum tempo vem ocorrendo iniciativas de meninas de diversas partes do Brasil e de fora dele a fim de difundir o Parkour feminino, incentivando garotas a começar a treinar e dando suporte para as que já treinam conseguirem se desenvolver na prática. Essas iniciativas são de grande valia para a difusão da cena do Parkour como um todo, entretanto, existe uma tendência sexista de alguns desses grupos que tendem a superiorizar a imagem do Parkour feminino. É importante saber que existem mulheres que treinam, só temos que tomar cuidado, pois, não nos tornamos mais especiais porque treinamos, nem estamos numa competição contra os meninos. Na verdade, todos fazem parte desse todo que quer ver o Parkour se desenvolvendo e ganhando cada vez mais espaço e adeptos pelo mundo, independe de sexo.

Às vezes estamos tão inseridos no meio que nem percebemos que fazemos essas separações (deixando claro que necessidades especiais devem ser superadas). Não precisamos criar mais barreiras do que as que já existem pelo mundo. Afinal, o Parkour é uma prática que preza pela união e não o contrário.

Mensagem

14 jun

Alguns de vocês deveriam ver isso:

é velho mas vale a pena.

blah

E assim começamos..

4 jun

Me seguro muito para não escrever sobre os treinos e sobre tudo o que passamos no começo do Parkour por aqui. Acho que pode soar mal interpretado, exagerado e até mesmo egocêntrico. Sofremos muito, e aprendemos muito com tudo o que fizemos. Cada gota de suor que caiu naquele chão contribuiu para tudo o que sou hoje em dia. Cada um que ralou a mão naqueles muros contribuiu para a força que tenho, determinação que adquiri, e todo o conhecimento que o Parkour me trouxe, relatos como esse que se segue, me fazem lembrar de como somos fortes.

O André, foi um dos bons amigos que o Parkour me trouxe, e com a vida cada vez mais corrida nos vemos apenas em encontros casuais pela rua, mas sempre conversamos com um respeito e carinho enorme. O André me mandou esse texto e fiquei bastante comovido com o conteúdo, me trouxe várias lembranças maravilhosas, e acho que seria injusto não compartilhar isso com vocês.


Esta é uma mensagem e agradecimento de quem iniciou e está até hoje no caminho do Parkour.

Meu nome é André (Ninja), e alguns dos  antigos aqui de Brasília me conhecem, sou de Sobradinho – Df e treino desde início de 2006, sempre influenciado pelos filmes(Principalmente Jackie Chan, nada a ver com PK, mas só aquilo já achava demais!). Ví uma reportagem sobre essa “prática” pulei da cadeira dizendo: “CARALHO! É ISSO! É ISSO AÍ! as  TÉCNICAS que o JACKIE CHAN  FAZ!”  (Nada a ver, olha a falta de informação na merda que dá ). Após tentar achar incansavelmente informações corretas sobre Parkour que na época eu não sabia que era este nome, nem tinha idéia quem e o que era David Belle, Foucan,Yamakasi, Método Natural e etc.

Depois de procurar e não achar nada direito eu consegui iniciar os treinos graças ao contato no Orkut do pessoal de Sobradinho -DF que estava iniciando também. Nosso primeiro “treino” foram apenas Landings, saltos de precisão e mais Landing, coisa besta, ridícula. Foram 50 landings de uma altura de 1,50m e depois os saltos de precisão e depois mais landings. No final eu falei: “Só isso? É isso? Se for assim vai ser tranqüilo”. Eu já com 7 anos de artes marciais nas costas pensava que aquilo não ia fazer nem cócegas, MEU IRMÃO, no outro dia eu acordei QUEBRADO! PQP! Eu falei: “Mas que porra é essa bixo? Aqueles saltinhos acabaram comigo! Como pode! Sempre treinei muito, trabalhei muita perna, corri, lutei, 7 anos de artes marciais! como pode!? ”. É diferente, a musculatura trabalhada é diferente! A intensidade, é totalmente diferente de qualquer outra atividade,  fiquei indignado, e ao mesmo tempo louco para treinar mais, para mim tudo que me faz ficar quebrado, acabado, me põe no chão e me faz ficar mais forte é digno de ser treinado e vale a pena.

Depois de saber o que era essa prática vendo alguns vídeos na internet e algumas informações eu percebia que aqueles saltos, pulos, movimentos, o cara para fazer isso precisava ser forte, para aguentar os impactos e a intensidade dos movimentos. Com o pouco que eu tinha(na verdade, NÃO TINHA NADA!), vi que precisava de mais conhecimento, e de alguém bem mais experiente e que pudesse me explicar realmente o que era Parkour e como treinar. Depois de saber onde encontrar tive a sorte e oportunidade de treinar com os melhores caras que conheço, sou grato a tudo que aprendi(e aprendo até hoje) com eles. Iniciei os treinos com o Beto(Alberto), Alex Pires, Bernardo, Breno, Santigas, Alan. Lá nos treinos eu sentia a essência de um treino. Sem frescura, pesado, puxado, desafiador, que te colocava no limite. Um dos vários treinos que tínhamos a exemplo, era o famoso “círculo maldito”, eu pensava sempre “CARALHO! ESSE É O TREINO! É ISSO QUE EU QUERO!”. Sempre que eu voltava de um treino ou da 308 ou 303 sul, no outro dia eu acordava quebrado, morto e querendo mais!

Como eu já vinha de uma doutrina de arte marcial, de disciplina, respeito, muito treino, sem moleza. Eu me identifiquei muito com o Beto(tenho muito respeito por esse cara, devo muito a ele, é umas das únicas referencias de responsabilidade que eu indico para quem me pergunta. O Beto que também vinha de uma linha assim, sempre focado, sério, os treinos  tinham que ter disciplina e ralação total, e nada de moleza, preguiça e desculpa.  Não tinha espaço para isso nos treino, coisa que eu concordava(e concordo até hoje, claro que mais brando, respeitando um pouco os limites dos outros). Era lei da natureza mesmo, sobrevivem os mais fortes(tanto física quanto mental) e os que não aguentavam eram “eliminados” . Mesmo que fosse um pouco desigual com as outras pessoas, isso forçava os que treinavam para valer a ter uma evolução muito grande. O negócio era ser bruto mesmo, e era o que eu queria! Ficar mais forte! Bruto! Para aguentar o tranco dos movimentos, ir mais longe e mais rápido.

Ultimamente ouvi a todos os “PODKAST  COM K” e o melhor foi sobre a BRUTALIDADE , que era(e ainda é) desse jeito em alguns treinos. Lembro que quem me ensinou sobre como ser bruto foi o Beto, e claro o Alex Pires, lembro uma vez que estávamos treinando “saut de bras” e o Alex estava comandando o treino, eu praticamente não falo durante o treino, para mim treino é hora de treinar e não de falar. Mas naquela hora fui explicar para outro iniciante sobre a pegada do movimento e o Alex me pegou na hora que eu estava de pé falando de técnica. Ele chegou perto de mim e falou: “Ow  já que você tá falando de técnica aí, sabe uma técnica boa para você ficar forte?” eu pensei : “Caraca, quero saber”, e falei para o Alex: “Sério? Que técnica é?, Fala aí”, ele falou bem sério e rápido: “treina mais e fala menos!” e saiu. PQP! Era uma brutalidades assim, e eu saiba que o negócio era esse mesmo.

Lembro que na época estava a sensação do “Planche” lá na 308, nas árvores, quase todo mundo já conseguindo fazer o bendito do “Planche” que era um marco na época! O Beto ainda fazia por etapas! (faz tempo mesmo) fazia primeiro com um braço e depois o outro, ele fez uma assim para me mostrar. Daí o Alex chegou e falou: “quando vocês estiverem bons eu ensino a fazer isso” e já fez o “Planche ” com os dois braços e de uma vez só! E todo mundo: “Caralho! Que escroto!” Porra! O FDP já estava lá na frente do pessoal, em um outro nível, daí eu perguntei: “Caraca! Como se faz isso?” O Alex falou: “é fácil, SOBE!”. Eu falei: “Pô bixo, mas como eu faço para subir?”, Ele veio de novo e falou: “Bixo, Sobe! PEGA E SOBE!”. Daí depois de algumas tentativas frustradas fui no Beto e falei: “Ow Beto, como faço para subir com Planche?”, e para mim como o Beto já estava começando e já sabia como fazer eu esperava já sair do treino com alguma dica, daí o Beto falou: “Ah Véi! É fácil pega e SOBE!” ¬¬. PQP! Resultado, voltei para Sobradinho com isso na cabeça. Eu não ia parar enquanto não conseguisse fazer o “Planche”, fiquei 1 mês! praticamente todos os dias tentando fazer, treinava barra incansavelmente, e finalmente consegui fazer! Subí com um braço e depois outro! Depois voltei para 308 já para acompanhar os caras fazendo o bendito do Planche, depois do treino pesado, comentei  que já estava subindo com um braço e depois o outro. Daí o Beto falou: “Pô, muito bom, é isso aí! Agora você tenta fazer assim” e já subiu com os dois braços em um movimento fazendo o “Planche”! Caraca! O cara já estava lá na frente! E era isso que me estimulava! Eu chegava e via um novo movimento, técnico ou exercício, que eu ainda não conseguia fazer, voltava para casa, treinava, treinava e treinava até conseguir. Quando eu voltava já fazendo, os caras já estavam em outro nível, e isso força agente a sempre evoluir. Pena que não pude treinar todos os dias com ele, se não minha evolução seria estupidamente maior. Para os iniciantes que estão vindo agora, aproveitem a oportunidade de treinar com esses caras, vocês vão evoluir muito rápido!

Depois foi a hora de tentar o Planche completo. Tentei, tentei, e tentava de todos os jeitos e não conseguia. Ralei pra caralho. Depois em um outro treino qualquer na 303, já no final desse treino, só estava Eu, o Beto, Alan e mais um que não me lembro. Eu sei que conversando com eles, eu falei que estava treinando direto e não conseguia fazer Planche, daí o Beto me deixou tentando um monte de vezes sem conseguir e eles fazendo tudo. Eu pensando comigo: “como eles estão conseguindo??” no final o Beto deu aquela dica da jogadinha do joelho ou do balanço, e na segunda tentativa eu consegui! PQP! Foi tão tranquilo que não fiz quase nenhuma força, foi “fácil” porque eu já estava treinando e tentando há muito tempo! Se eu não estivesse ficado esse tempo todo treinando para conseguir sozinho eu poderia não conseguir mesmo com as dicas. Depois de comemorar falaram aquele antigo lema:  “No parkour para você conseguir fazer um, você tem que fazer no mínimo três e seguidas! Sem errar nenhuma entre as três”. Essa sensação é indescritível. Vencer algo que você está ralando e treinando pra caralho, só quem treina que sabe.

Treinar duro, sem frescura, indo além do limite, se desfazendo de qualquer fraqueza ou desculpa é importante. Essa brutalidade é importante. Lembro que várias vezes existiam os treinos noturnos, e eu VIBRAVA COM ELES! Teve uma vez em que fizemos um treino e um deles era o seguinte: “Serão 100 “Saut de Bras”, só a subida e SEM BRARULHO! Se alguém fizesse barulho, nós iríamos fazer mais 10, e todo mundo ia fazer! Era madrugada, qualquer raspada no muro fazia um puta barulho, só quem quer ser melhor vem treinar nesses momentos. Lembro que estávamos tão alucinados com os treinos que fazíamos de propósito barulho para fazermos mais 10! Lá pelas quase 03:00 da madrugada, e eu tinha que estar no serviço as 07:00 da manhã. Estávamos treinando equilíbrio no círculo de areia na 308, iríamos fazer 50 voltas para um lado e 50 voltas para o outro lado, Sem cair! No finalzinho a maioria já morto, muitos com sono, alguns parando no meio do treino, e para os que se mantinha em pé, o lema era “faça e não reclame!”. No final só quem não perdeu o equilíbrio e não caiu fomos Eu e o Beto. Lembro que nessa época já estávamos em um nível de brutalidade foda, teve um momento nessa noite que algumas pessoas chegaram para mim e falaram: “André, vê se vc consegue falar com o Beto, ele tá muito bruto com o pessoal”. Eu parei.. Olhei, já estava quebrado e já no final do treino, ainda concentrado, falei  no extinto: “Sim, e daí? Quem não aguenta sai”. Não tinha desculpa, tem que fazer, então tem que fazer, e só.

Uma coisa que muitos iniciantes não entendem, não gostam, desistem, reclamam, é justamente isso: “Pô, se já tem um jeito fácil de fazer, para que sofrer tanto? Para que treinar tanto?”. É justamente para você dar valor aos treinos, se conhecer, batalhar e ralar por você mesmo até conseguir chegar por seus próprios méritos. Com isso você desenvolve e caleja seu espírito, você não desiste por qualquer coisa. Você aprende a cair, levantar, e seguir em frente. Você sempre vai tentar ir além do que seu corpo consegue.

Ser forte não é ter só força física, ser rápido, fazer tudo. Ser forte é você apanhar, cair, levantar, apanhar, cair, levantar de novo e continuar aguentando. Até  um nível tal, onde não vai ser qualquer coisa que vai te derrubar.

Muitos falam que Parkour é para qualquer um, mas NÃO É! Parkour é para quem está disposto a ralar, sentir dor, cansaço tanto físico quanto mental , é para quem consegue desenvolver um espírito lutador, quem está disposto a sofrer para atingir um objetivo. Parkour está disponível para todos que querem, MAS os que querem devem se transformar ou desenvolver essas e outras “qualidades” . De aguentar a dor, ralar, ralar, ralar, não desistir e etc… e isso é possível! Conheci muitos que nunca tiveram alguns dessas qualidades que desenvolveram com o treino, incentivo e perseverança.

Atualmente temos a consciência de que contra-balanceando a exigência dos treinos e a disciplina, com as limitações das pessoas conseguimos equilibrar e  desenvolver qualquer pessoa que se identifique. Até mesmo algumas (não todas) que inicialmente não durariam muito tempo no “sistema antigo ” que ainda é pelo menos para mim, o que funciona! Infelizmente com o tempo que tenho, e as vivências que tivemos, MUITOS  ficaram, ficam e vão ficar pelo caminho.

Parkour não é para qualquer um! Parkour é  para TODOS, todos que estão dispostos a se tornarem mais fortes.

Quero parabenizar e dizer que o trabalho sério, bem feito, com espírito forte e fiel as origens do Parkour. Como os grande que tive a oportunidade de aprender, sempre se desenvolvendo aprimorando suas as técnicas com os melhores do mundo. Como foi a vinda do Erwan (Método Natual/MovNat) e do Thomas Coeutdic aqui para o Brasil que foi uma das melhores experiências que já tive, e aprendi muito. Esse trabalho dá frutos e se perpetua. Por mais que, de 30 que iniciem e reste apenas 1, esse único que durou leva o legado para frente. Um exemplo disso é um cara que se tornou um dos melhores atualmente, grande  Maurício! Lembro a primeira vez que vi o cara, depois do treino pesado, estávamos quebrados e faltavam 100 landings, terminamos os 50 primeiros, o Beto falou para dar um intervalo, assim que nós sentamos o Maurício que estava iniciando chegou para o Beto e perguntou: “Cara, eu posso terminar os outros 50 agora? É que eu tenho que ir para casa”. O Beto falou que sim e  o cara voltou a fazer os outros 50 como se fossem os primeiros! Eu olhei pro Beto e ele falou: “Caralho véi!”, Eu fiquei impressionado também, e na mesma hora eu pensei: “o cara tem fibra, se ele continuar treinando assim, vai ficar monstro ” Dito e feito! Hoje o cara tá mandando muito bem. Quem inicia certo, termina certo!

Por mais que eu não mantenha contato, eu continuo, sempre treinando, saltando por aí, e ajudando os que querem iniciar a treinar, do mesmo jeito que me ajudaram quando iniciei.

Os “PODKAST COM K” estão ótimos e de parabéns.

PARABÉNS BETO !!! PARABÉNS A TODOS QUE CONTINUAM COM ESSE TRABALHO !!! Parabéns ao “DECIMADOMURO”, “PULO DO GATO”,  “PKMAX”, “Geração Tracer” “Movimente” e tantos outros que continuam com esse trabalho.

Grande abraço

FORÇA SEMPRE!

O Parkour que você deveria procurar

30 mai

Eu acredito que poderia transformar este post em algo bem mais especifico, e talvez faça isso depois. Vim pensando na quantidade de habilidades que adquiri a partir do Parkour e que em nenhuma outra disciplina eu vi acontecer, algo que está presente no mindset(1) do Parkour, e que faz com que toda nossa experiência seja muito maior do que simplesmente atravessar um percurso de um ponto a outro, maior do que subir muros, maior do que tudo o que normalmente buscamos dentro do parkour, e isso é o que deveríamos buscar verdadeiramente.

Parkour é uma atividade apaixonante, poucas pessoas que se aventuram em um treino de Parkour (eu falo TREINO, de verdade sabe?) não entram de cabeça buscando o máximo de informação possível, e talvez todas essas habilidades façam parte do pacote inicial que encanta tanto os novatos, e que passam despercebidas pela falta de abordagem relativa a isso, tudo isso que vou falar, já vi alguém citando, mas resolvi fazer minha própria síntese.

existem coisas muito importantes: o toque, a sensibilidade, e o condicionamento físico

Stephane Vigroux

Awareness(2)

No Parkour essa sensação é notável desde o inicio, quando se aprende os primeiros movimentos, e começamos a fazer os primeiros saltos, rapidamente começamos a associar o mundo exterior com essa liberdade de se movimentar pelas estruturas disponíveis na rua, pelo que antes passávamos e não percebíamos. Tudo isso gera um estado constante de observação, de percepção. Vemos coisas que o resto do mundo normalmente ignora, esquece, deixa pra trás.

Lembro claramente das minhas primeiras semanas de parkour, que deixei de andar olhando pra frente e comecei a olhar tudo ao meu redor, o topo dos prédios, imaginar a distancia que teria de uma ponta a outra, quanto eu precisaria treinar para conseguir, qual seria a sensação de fazer cada um dos saltos que eu via. Procurava a todo instante pontos que pudessem servir de obstáculo, situações que pudessem exigir algum tipo de habilidade. E este relato se repete a cada novo praticante que vejo começando no Parkour. Nós vemos uma cidade diferente, da forma que um cidadão comum vê, e se não vê, ainda não sabe o que é o Parkour.

Com o passar do tempo esta forma de procurar obstáculos ao seu redor é substituído por uma noção de emergência, uma forma de imaginar sempre “por onde eu iria sair se acontecesse alguma coisa aqui?”, então você acaba se tornando mais atento para tudo que está ao seu redor a todo momento, e normalmente com um bom plano de fuga para se alguma situação ímpar acontecer. É algo natural, e normalmente é feito como uma brincadeira mental, formulando planos, e estratégias em sua própria ficção mental.

Outra percepção que adquirimos é uma noção bem particular de distância, sabemos com um simples olhar se conseguimos ou não alcançar algum ponto. Sabemos com o olhar as distâncias medidas com nossos próprios pés, “Daqui até aquela parede tem 9 pés”, não adianta, a gente sempre acerta. Esse tipo de noção foi amplificado quando paramos de medir, associamos essa necessidade com a possibilidade de uma emergência, e passamos a simplesmente olhar e saber. Tracers são máquinas de cálculos visuais.

O toque e a sensibilidade

Existe uma habilidade adquirida que é fantástica, e que fui apenas perceber quando um amigo me disse para treinar isso ativamente e não simplesmente deixar acontecer. A capacidade de saber exatamente a textura, a consistência, a capacidade de aderência, e a integridade de uma superfície sem nunca ter tocado.

Sabemos que muros chapiscados aderem demais, e que se chegarmos com muita força provavelmente vamos machucar os pés. Muros brancos pintados de cal aparentemente são aderentes, mas quando os pés tocam a parede deslizam rapidamente para baixo. Sabemos que alguns tipos de arvores tem galhos finos porém super resistentes, e que alguns galhos aparentam bastante rigidez mas quebram facilmente com qualquer força sobre ele. Necessitamos o tempo todo de uma sensibilidade a mais do que a comum para não termos surpresa durante os saltos, e que para nosso objetivo maior que é estar preparado para situações de emergência, saber onde pisamos é uma chave de ouro.

No começo fazemos isso naturalmente, e com a experiência aprendemos que determinadas superfícies são mais escorregadias, ou mais aderentes. Sabemos que esse tipo de Percepção nos é necessário, e que pode nos manter longe de acidentes. Mas uma vez que treinado, esse tipo de habilidade pode ser ampliada de uma forma fantástica, tocar as superfícies, sentir e absorver esses padrões deve se tornar um hábito, até tudo isso ficar automático, e você simplesmente saber se pode fazer ou não um salto para determinado lugar apenas com a análise visual, sabendo se vai escorregar demais, ou aderir demais.

Brutalidade e Força

Como sempre faço questão de dizer, poucas pessoas são tão fortes como os tracers. Temos algum distúrbio gerado pela forma com que nos desenvolvemos, e que faz nosso referencial de força, esforço, exercício físico e dedicação serem um pouco deturpadas. É muito comum tracers fazerem séries longas de exercício que parecem mentira para as pessoas de fora, quem não está nesse meio se assusta com o que fazemos.

Tracers buscam sempre alcançar o máximo de força possível, e todo mundo dentro do parkour acha que pode ser cada vez mais forte, e fazer cada vez mais coisas, ou você conhece muito mais gente que se junta com os amigos num domingo para fazer 500 flexões? ou 100 repetições de algum movimento? carregar o amigo escada acima, correr descalço, fazer barras com 10/20 kg extra? Tudo isso pelo simples prazer de fazer, de uma forma até sádica, tracers tem prazer no suor, e no esforço. Todo mundo se espanta com os feitos executados pelos tracers, e esse espírito é o ponto máximo do Parkour para mim. Buscar ser o mais forte possível, sempre.

Temos uma capacidade de ir atrás do que queremos invejável, acreditamos em um objetivo e trabalhamos arduamente pelo menos objetivo por meses, simplesmente para fazer um único movimento, ou um obstáculo especifico. Não viramos as costas e vamos embora, permanecemos fazendo 10, 20, 100, 300, 1000 repetições, não simplesmente até conseguir, mas até fazer da forma mais limpa e perfeita possível, o importante não é só acertar, mas tornar tão natural que seja impossível errar.

O que devemos buscar

Tracers em sua maioria são formados na rua, no asfalto, com as mãos sangrando pelos calos arrancados no muro, com muito suor e sujeira. Aprendemos a ser resistentes e menos frescos, saímos da nossa zona de conforto, das roupas limpas, da calçada e da escada, e passamos a enxergar um mundo bem mais completo e cheio de aventuras, descobrimos uma nova dimensão dentro do mundo aonde sempre vivemos, e que agora nos fascina por sua total complexidade.

Falamos muito em um Parkour simples e direto, buscando eficiência e e agilidade, mas tudo isso gera um reflexo em nossas vidas pessoais que sabendo como buscar, compartilhando, podemos aproveitar muito mais. Devemos ficar atento para os aspectos secundários do Parkour, e aos benefícios extras que conseguimos durante os treinos. Existem vários outros além dos que citei, lembra de algum? compartilhe!

(1) Mindset = algo como a forma de pensar, a mentalidade envolvida.

(2) Awareness: Serve para descrever um estado de consciência, de percepção, da capacidade de perceber as coisas ao seu redor.

Parkour no Papo de Homem

26 mai

Escrevo para a considerada então, a melhor revista online brasileira, o Papo de Homem. Recebi uma proposta de pauta que envolvia esse assunto que vivo a tantos anos e não pensei duas vezes em escrever da melhor forma possível um texto que servisse de porta de entrada para o Parkour, um texto de parkour para não interessados, pessoas que leriam casualmente.

E esse foi o resultado:

Partour 2011 – Brasília – Vai Perder?

26 mai

Um dos mais originais eventos de parkour do país está de volta em sua terceira edição, e para quem não conhece, o partour é um evento aonde se visitam os mais variados pontos de treino de Brasília em um tour incrível.  Nesse ano o a Movimente com algumas surpresas para você:

blah

Maiores informações

Jarbas, Petrolina

17 mai

Exelente movimentação, belíssimo vídeo nacional.

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