
Me seguro muito para não escrever sobre os treinos e sobre tudo o que passamos no começo do Parkour por aqui. Acho que pode soar mal interpretado, exagerado e até mesmo egocêntrico. Sofremos muito, e aprendemos muito com tudo o que fizemos. Cada gota de suor que caiu naquele chão contribuiu para tudo o que sou hoje em dia. Cada um que ralou a mão naqueles muros contribuiu para a força que tenho, determinação que adquiri, e todo o conhecimento que o Parkour me trouxe, relatos como esse que se segue, me fazem lembrar de como somos fortes.
O André, foi um dos bons amigos que o Parkour me trouxe, e com a vida cada vez mais corrida nos vemos apenas em encontros casuais pela rua, mas sempre conversamos com um respeito e carinho enorme. O André me mandou esse texto e fiquei bastante comovido com o conteúdo, me trouxe várias lembranças maravilhosas, e acho que seria injusto não compartilhar isso com vocês.
Esta é uma mensagem e agradecimento de quem iniciou e está até hoje no caminho do Parkour.
Meu nome é André (Ninja), e alguns dos antigos aqui de Brasília me conhecem, sou de Sobradinho – Df e treino desde início de 2006, sempre influenciado pelos filmes(Principalmente Jackie Chan, nada a ver com PK, mas só aquilo já achava demais!). Ví uma reportagem sobre essa “prática” pulei da cadeira dizendo: “CARALHO! É ISSO! É ISSO AÍ! as TÉCNICAS que o JACKIE CHAN FAZ!” (Nada a ver, olha a falta de informação na merda que dá ). Após tentar achar incansavelmente informações corretas sobre Parkour que na época eu não sabia que era este nome, nem tinha idéia quem e o que era David Belle, Foucan,Yamakasi, Método Natural e etc.
Depois de procurar e não achar nada direito eu consegui iniciar os treinos graças ao contato no Orkut do pessoal de Sobradinho -DF que estava iniciando também. Nosso primeiro “treino” foram apenas Landings, saltos de precisão e mais Landing, coisa besta, ridícula. Foram 50 landings de uma altura de 1,50m e depois os saltos de precisão e depois mais landings. No final eu falei: “Só isso? É isso? Se for assim vai ser tranqüilo”. Eu já com 7 anos de artes marciais nas costas pensava que aquilo não ia fazer nem cócegas, MEU IRMÃO, no outro dia eu acordei QUEBRADO! PQP! Eu falei: “Mas que porra é essa bixo? Aqueles saltinhos acabaram comigo! Como pode! Sempre treinei muito, trabalhei muita perna, corri, lutei, 7 anos de artes marciais! como pode!? ”. É diferente, a musculatura trabalhada é diferente! A intensidade, é totalmente diferente de qualquer outra atividade, fiquei indignado, e ao mesmo tempo louco para treinar mais, para mim tudo que me faz ficar quebrado, acabado, me põe no chão e me faz ficar mais forte é digno de ser treinado e vale a pena.
Depois de saber o que era essa prática vendo alguns vídeos na internet e algumas informações eu percebia que aqueles saltos, pulos, movimentos, o cara para fazer isso precisava ser forte, para aguentar os impactos e a intensidade dos movimentos. Com o pouco que eu tinha(na verdade, NÃO TINHA NADA!), vi que precisava de mais conhecimento, e de alguém bem mais experiente e que pudesse me explicar realmente o que era Parkour e como treinar. Depois de saber onde encontrar tive a sorte e oportunidade de treinar com os melhores caras que conheço, sou grato a tudo que aprendi(e aprendo até hoje) com eles. Iniciei os treinos com o Beto(Alberto), Alex Pires, Bernardo, Breno, Santigas, Alan. Lá nos treinos eu sentia a essência de um treino. Sem frescura, pesado, puxado, desafiador, que te colocava no limite. Um dos vários treinos que tínhamos a exemplo, era o famoso “círculo maldito”, eu pensava sempre “CARALHO! ESSE É O TREINO! É ISSO QUE EU QUERO!”. Sempre que eu voltava de um treino ou da 308 ou 303 sul, no outro dia eu acordava quebrado, morto e querendo mais!
Como eu já vinha de uma doutrina de arte marcial, de disciplina, respeito, muito treino, sem moleza. Eu me identifiquei muito com o Beto(tenho muito respeito por esse cara, devo muito a ele, é umas das únicas referencias de responsabilidade que eu indico para quem me pergunta. O Beto que também vinha de uma linha assim, sempre focado, sério, os treinos tinham que ter disciplina e ralação total, e nada de moleza, preguiça e desculpa. Não tinha espaço para isso nos treino, coisa que eu concordava(e concordo até hoje, claro que mais brando, respeitando um pouco os limites dos outros). Era lei da natureza mesmo, sobrevivem os mais fortes(tanto física quanto mental) e os que não aguentavam eram “eliminados” . Mesmo que fosse um pouco desigual com as outras pessoas, isso forçava os que treinavam para valer a ter uma evolução muito grande. O negócio era ser bruto mesmo, e era o que eu queria! Ficar mais forte! Bruto! Para aguentar o tranco dos movimentos, ir mais longe e mais rápido.
Ultimamente ouvi a todos os “PODKAST COM K” e o melhor foi sobre a BRUTALIDADE , que era(e ainda é) desse jeito em alguns treinos. Lembro que quem me ensinou sobre como ser bruto foi o Beto, e claro o Alex Pires, lembro uma vez que estávamos treinando “saut de bras” e o Alex estava comandando o treino, eu praticamente não falo durante o treino, para mim treino é hora de treinar e não de falar. Mas naquela hora fui explicar para outro iniciante sobre a pegada do movimento e o Alex me pegou na hora que eu estava de pé falando de técnica. Ele chegou perto de mim e falou: “Ow já que você tá falando de técnica aí, sabe uma técnica boa para você ficar forte?” eu pensei : “Caraca, quero saber”, e falei para o Alex: “Sério? Que técnica é?, Fala aí”, ele falou bem sério e rápido: “treina mais e fala menos!” e saiu. PQP! Era uma brutalidades assim, e eu saiba que o negócio era esse mesmo.
Lembro que na época estava a sensação do “Planche” lá na 308, nas árvores, quase todo mundo já conseguindo fazer o bendito do “Planche” que era um marco na época! O Beto ainda fazia por etapas! (faz tempo mesmo) fazia primeiro com um braço e depois o outro, ele fez uma assim para me mostrar. Daí o Alex chegou e falou: “quando vocês estiverem bons eu ensino a fazer isso” e já fez o “Planche ” com os dois braços e de uma vez só! E todo mundo: “Caralho! Que escroto!” Porra! O FDP já estava lá na frente do pessoal, em um outro nível, daí eu perguntei: “Caraca! Como se faz isso?” O Alex falou: “é fácil, SOBE!”. Eu falei: “Pô bixo, mas como eu faço para subir?”, Ele veio de novo e falou: “Bixo, Sobe! PEGA E SOBE!”. Daí depois de algumas tentativas frustradas fui no Beto e falei: “Ow Beto, como faço para subir com Planche?”, e para mim como o Beto já estava começando e já sabia como fazer eu esperava já sair do treino com alguma dica, daí o Beto falou: “Ah Véi! É fácil pega e SOBE!” ¬¬. PQP! Resultado, voltei para Sobradinho com isso na cabeça. Eu não ia parar enquanto não conseguisse fazer o “Planche”, fiquei 1 mês! praticamente todos os dias tentando fazer, treinava barra incansavelmente, e finalmente consegui fazer! Subí com um braço e depois outro! Depois voltei para 308 já para acompanhar os caras fazendo o bendito do Planche, depois do treino pesado, comentei que já estava subindo com um braço e depois o outro. Daí o Beto falou: “Pô, muito bom, é isso aí! Agora você tenta fazer assim” e já subiu com os dois braços em um movimento fazendo o “Planche”! Caraca! O cara já estava lá na frente! E era isso que me estimulava! Eu chegava e via um novo movimento, técnico ou exercício, que eu ainda não conseguia fazer, voltava para casa, treinava, treinava e treinava até conseguir. Quando eu voltava já fazendo, os caras já estavam em outro nível, e isso força agente a sempre evoluir. Pena que não pude treinar todos os dias com ele, se não minha evolução seria estupidamente maior. Para os iniciantes que estão vindo agora, aproveitem a oportunidade de treinar com esses caras, vocês vão evoluir muito rápido!
Depois foi a hora de tentar o Planche completo. Tentei, tentei, e tentava de todos os jeitos e não conseguia. Ralei pra caralho. Depois em um outro treino qualquer na 303, já no final desse treino, só estava Eu, o Beto, Alan e mais um que não me lembro. Eu sei que conversando com eles, eu falei que estava treinando direto e não conseguia fazer Planche, daí o Beto me deixou tentando um monte de vezes sem conseguir e eles fazendo tudo. Eu pensando comigo: “como eles estão conseguindo??” no final o Beto deu aquela dica da jogadinha do joelho ou do balanço, e na segunda tentativa eu consegui! PQP! Foi tão tranquilo que não fiz quase nenhuma força, foi “fácil” porque eu já estava treinando e tentando há muito tempo! Se eu não estivesse ficado esse tempo todo treinando para conseguir sozinho eu poderia não conseguir mesmo com as dicas. Depois de comemorar falaram aquele antigo lema: “No parkour para você conseguir fazer um, você tem que fazer no mínimo três e seguidas! Sem errar nenhuma entre as três”. Essa sensação é indescritível. Vencer algo que você está ralando e treinando pra caralho, só quem treina que sabe.
Treinar duro, sem frescura, indo além do limite, se desfazendo de qualquer fraqueza ou desculpa é importante. Essa brutalidade é importante. Lembro que várias vezes existiam os treinos noturnos, e eu VIBRAVA COM ELES! Teve uma vez em que fizemos um treino e um deles era o seguinte: “Serão 100 “Saut de Bras”, só a subida e SEM BRARULHO! Se alguém fizesse barulho, nós iríamos fazer mais 10, e todo mundo ia fazer! Era madrugada, qualquer raspada no muro fazia um puta barulho, só quem quer ser melhor vem treinar nesses momentos. Lembro que estávamos tão alucinados com os treinos que fazíamos de propósito barulho para fazermos mais 10! Lá pelas quase 03:00 da madrugada, e eu tinha que estar no serviço as 07:00 da manhã. Estávamos treinando equilíbrio no círculo de areia na 308, iríamos fazer 50 voltas para um lado e 50 voltas para o outro lado, Sem cair! No finalzinho a maioria já morto, muitos com sono, alguns parando no meio do treino, e para os que se mantinha em pé, o lema era “faça e não reclame!”. No final só quem não perdeu o equilíbrio e não caiu fomos Eu e o Beto. Lembro que nessa época já estávamos em um nível de brutalidade foda, teve um momento nessa noite que algumas pessoas chegaram para mim e falaram: “André, vê se vc consegue falar com o Beto, ele tá muito bruto com o pessoal”. Eu parei.. Olhei, já estava quebrado e já no final do treino, ainda concentrado, falei no extinto: “Sim, e daí? Quem não aguenta sai”. Não tinha desculpa, tem que fazer, então tem que fazer, e só.
Uma coisa que muitos iniciantes não entendem, não gostam, desistem, reclamam, é justamente isso: “Pô, se já tem um jeito fácil de fazer, para que sofrer tanto? Para que treinar tanto?”. É justamente para você dar valor aos treinos, se conhecer, batalhar e ralar por você mesmo até conseguir chegar por seus próprios méritos. Com isso você desenvolve e caleja seu espírito, você não desiste por qualquer coisa. Você aprende a cair, levantar, e seguir em frente. Você sempre vai tentar ir além do que seu corpo consegue.
Ser forte não é ter só força física, ser rápido, fazer tudo. Ser forte é você apanhar, cair, levantar, apanhar, cair, levantar de novo e continuar aguentando. Até um nível tal, onde não vai ser qualquer coisa que vai te derrubar.
Muitos falam que Parkour é para qualquer um, mas NÃO É! Parkour é para quem está disposto a ralar, sentir dor, cansaço tanto físico quanto mental , é para quem consegue desenvolver um espírito lutador, quem está disposto a sofrer para atingir um objetivo. Parkour está disponível para todos que querem, MAS os que querem devem se transformar ou desenvolver essas e outras “qualidades” . De aguentar a dor, ralar, ralar, ralar, não desistir e etc… e isso é possível! Conheci muitos que nunca tiveram alguns dessas qualidades que desenvolveram com o treino, incentivo e perseverança.
Atualmente temos a consciência de que contra-balanceando a exigência dos treinos e a disciplina, com as limitações das pessoas conseguimos equilibrar e desenvolver qualquer pessoa que se identifique. Até mesmo algumas (não todas) que inicialmente não durariam muito tempo no “sistema antigo ” que ainda é pelo menos para mim, o que funciona! Infelizmente com o tempo que tenho, e as vivências que tivemos, MUITOS ficaram, ficam e vão ficar pelo caminho.
Parkour não é para qualquer um! Parkour é para TODOS, todos que estão dispostos a se tornarem mais fortes.
Quero parabenizar e dizer que o trabalho sério, bem feito, com espírito forte e fiel as origens do Parkour. Como os grande que tive a oportunidade de aprender, sempre se desenvolvendo aprimorando suas as técnicas com os melhores do mundo. Como foi a vinda do Erwan (Método Natual/MovNat) e do Thomas Coeutdic aqui para o Brasil que foi uma das melhores experiências que já tive, e aprendi muito. Esse trabalho dá frutos e se perpetua. Por mais que, de 30 que iniciem e reste apenas 1, esse único que durou leva o legado para frente. Um exemplo disso é um cara que se tornou um dos melhores atualmente, grande Maurício! Lembro a primeira vez que vi o cara, depois do treino pesado, estávamos quebrados e faltavam 100 landings, terminamos os 50 primeiros, o Beto falou para dar um intervalo, assim que nós sentamos o Maurício que estava iniciando chegou para o Beto e perguntou: “Cara, eu posso terminar os outros 50 agora? É que eu tenho que ir para casa”. O Beto falou que sim e o cara voltou a fazer os outros 50 como se fossem os primeiros! Eu olhei pro Beto e ele falou: “Caralho véi!”, Eu fiquei impressionado também, e na mesma hora eu pensei: “o cara tem fibra, se ele continuar treinando assim, vai ficar monstro ” Dito e feito! Hoje o cara tá mandando muito bem. Quem inicia certo, termina certo!
Por mais que eu não mantenha contato, eu continuo, sempre treinando, saltando por aí, e ajudando os que querem iniciar a treinar, do mesmo jeito que me ajudaram quando iniciei.
Os “PODKAST COM K” estão ótimos e de parabéns.
PARABÉNS BETO !!! PARABÉNS A TODOS QUE CONTINUAM COM ESSE TRABALHO !!! Parabéns ao “DECIMADOMURO”, “PULO DO GATO”, “PKMAX”, “Geração Tracer” “Movimente” e tantos outros que continuam com esse trabalho.
Grande abraço
FORÇA SEMPRE!
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