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Coisas que o tempo ensina

11 mai

Coisas que o tempo ensina

Como será a vida daqui a 20 minutos? E daqui a 20 anos? Pergunta difícil de responder, não?

Como deve ser para um atleta ver seu corpo atrofiar com o tempo? Ver que ele não responde mais às suas vontades? Por mais difícil que seja assumir isso, pela linha natural da vida, acontecerá com todos nós. Em algum momento o nosso corpo não vai responder mais como respondia aos 15, nem aos 20, nem aos 30.

Somos escravos do tempo e, como qualquer coisa, temos um prazo de validade, mas, ter um prazo de validade não nos impede de usufruir dele até o final.

Hoje tive o prazer de ver uma bailarina de seus 70 anos fazendo um solo e sua performance no palco era de uma beleza encantadora. Por mais que a sua flexibilidade e seu tônos não sejam impecáveis, ela exerceu um trabalho em cena que não deve nada a nenhuma bailarina de 18 anos. Porque, em cena não tinha só uma bailarina, tinha uma história. Por mais que seus movimentos não sejam como eram há  50 anos, hoje ela traz outras questões para o palco.

Ser mulher aos 70, ser bailarina aos 70, SER  aos 70.

blah

70 anos fazendo mais de 30 barras, e você quando tiver a idade dele?

Todos nós SOMOS independentes da idade.

O problema é que muitos se esquecem disso. Muitas vezes pessoas acham que suas vidas acabam porque “o prazo acabou”. É bom lembrar que o prazo não acaba nunca, enquanto há vida temos a “obrigação” de fazer dela o melhor possível. É muito importante ver toda a movimentação do pessoal da melhor idade, que está aí dando tapa na cara de muito moleque de 15 anos que tem preguiça de viver. Ver pessoas de 80 anos  dançando break sem nenhum medo de quebrar uma perna ou doer a coluna, por mera priguicinha.

No nosso meio o “tradicional” virou motivo de piada. A molecada quer fazer bonito, mas não quer treinar. Quer resultado sem caminho, sem estrada. Só estão esquecendo que o fim sem o meio em algum momento vai fazer você se perder, porque, se você não sabe de onde veio, você não tem para onde voltar. E ter para onde voltar é tão importante quanto saber para onde ir.

Exemplos de superação não faltam, mas, cada vez mais os exemplos só servem para compartilhar no Facebook e ficar popular. Perdemos a noção do que é uma referência e para que ela serve.  Somos uma jovem nação sem referência, não conhecemos a nossa história, não damos valor a quem veio antes de nós e ao esforço que eles tiveram para conquistar o que conquistaram.

Precisamos lembrar que em breve o hoje será ontem, e o ontem logo se perderá no passado, pois não estamos fazendo nenhum esforço para preservar essas conquistas. Se você pula muro hoje e se chama de tracer é porque alguém criou isso em algum lugar. Será que você conhece essa história? Não o decoreba que você aprendeu na Wikipedia, mas o porque disso tudo existir. Você ao menos já se perguntou isso? Já questionou que antes de você fazer seu vídeo e ficar pop no seu grupinho, outras pessoas fizeram vídeos com outros motivos? E que outras pessoas trabalharam e ainda estão trabalhando para que você não seja chamado de maluco, ou ladrão quando vai treinar na rua?

Precisamos aprender a questionar, a procurar, a entender que esse be-a-bá que te deram quando você começou a treinar não é suficiente para te manter praticando. Porque, se você quer ser como a bailarina que aos 70 anos ainda dança, você tem que saber porque você dança.

Procure o seu meio, o seu caminho, mas entenda que outros já foram criados e não custa nada respeitá-los. Você não precisa trilhar o mesmo caminho que já foi trilhado, mas precisa sim entender que caminho é esse.

Se você quer resultados efetivos, notórios e permanentes, faça por onde. Não é treinando no final de semana que você se torna um tracer. Não é vendo vídeo no Youtube que você vai se tornar um tracer.

Procure o seu caminho e entenda que muitas vezes vai doer, muitas vezes você vai querer desistir, muitas vezes o próximo passo parece inalcançavél, mas só quando você conseguir passar por isso você vai entender o “porquê”. Descubra o seu porquê e abrace ele com unhas e dentes, pois ninguém nunca vai poder te tirar isso. Talvez assim você possa ser uma bailarina aos 70, ou talvez só aos 70 você entenda o que é ser um tracer.

Parkour não é Religião

3 abr

Religião: “Culto prestado a divindade; Crença na existência de uma ou mais forças sobrenaturais; reverência às coisas sagradas; observância dos preceitos religiosos, etc.”.Obviamente que não estou subjugando a capacidade de ninguém (até porque Google está acessível para todos), mas vamos ao que interessa.

Começar esse texto com a definição da palavra religião já reduz meu trabalho no mínimo ao meio, mas, o que eu quero com isso?

Tenho visto com uma frequência assustadora pessoas influentes no cenário Parkurístico afirmando categoricamente (ou simplesmente insinuando) que Parkour é religião. Bem, para isso precisaríamos enquadrá-lo em uma série de itens pelos quais ele nem passa perto.

Comecemos do principio:

  1. Apesar dos aclamados esforços para a canonização do DeusVidBelle está longe dele ser beatificado ou coisa que o valha, isso se estivermos seguindo os padrões cristãos.
  2. Por mais exótica, libertadora e pessoal que a sua experiência com Parkour seja, ela não é sobrenatural
  3. O fato de o Parkour ter filosofia própria não o caracteriza como religião. Esse ponto em especial eu quero destrinchar.

As artes marciais têm filosofia própria e nem por isso são religião. Não é porque você “sacraliza” o seu treino que ele se torna uma religião. Por mais difícil que seja entender isso, o Parkour é uma prática corporal com conceitos filosóficos, quer você só siga os “preceitos” filosóficos, quer você só treine físico. Por mais enriquecedor e agente de mudança que ele seja isso não o tira da categoria de prática corporal. Seus conceitos filosóficos, sua expansão sócio-econômica-cultural são parte inerentes disso.

Ser honesto, altruísta, é dever de todo cidadão e não do tracer especificamente. Se nós pregamos isso é porque faz parte da nossa cultura micro, que faz parte da nossa cultura macro. Entendam cultura micro como cultura do Parkour e cultura macro como a cultura social na qual o Parkour está inserido. Então, no primeiro plano, somos tracers fazendo a coisa certa e no segundo somos cidadãos fazendo que a nossa sociedade chama de função de cidadão, nada mais.

Por mais que nos sintamos especiais porque treinamos, por mais que o Parkour tenha mudado as nossas vidas, não somos melhores nem mais especiais simplesmente por que enxergamos o mundo de outra forma.

Somos tão agentes de mudança quanto um ciclista que decide não poluir o meio em que vive; quanto uma dona de casa que recicla o seu lixo porque quer viver num lugar melhor e assim por diante.

Nós fazemos o que achamos certo, isso não é exclusividade da nossa prática. Fazer o que é certo é dever de todo e qualquer cidadão.

Agora vocês devem estar se perguntando o porquê de eu tomar tão fervorosamente a defesa disso.

Então, o primeiro ponto que eu faço questão de levantar é: A prática não foi criada com fins nem meios religiosos, ela nunca teve esse caráter, entretanto, a partir do momento em que ela é defendida como tal, ela cria uma segregação imediata. “Ou você faz o Parkour certo, ou você não vai para o céu”. Tenhamos todos muito cuidado com os nossos xiitismos, pois, se alguma religião estiver certa, estamos mais de 90% da população condenados. Afinal, para uma estar certa, outras terão que estar erradas.

Bem, é certo que para muitos eu devo estar elucubrando sore o óbvio, mas tomo a defesa da prática para que ela continue a ser o que sempre foi: Uma prática.

Tudo bem, a dificuldade de conceituar Parkour é notória, mas prestemos muita atenção, pois, apesar dessa dificuldade, existem conceitos que não são aplicáveis e que quando aplicados desconstroem completamente o sentido da prática.

Praticar Parkour de maneira “religiosa” é completamente diferente de praticar o parkour-religião.

Parkour, Mídia e Arte

3 set

Parkour, Mídia e Arte

Com os avanços tecnológicos, o advento da internet, a globalização, o mundo ficou muito mais rápido, as informações hoje são veiculadas em tempo real, qualquer coisa pode virar notícia em uma fração de segundo. Vemos cada vez mais virais aparecendo na mesma velocidade que desaparecem e, sem dúvida, o Parkour é fruto disso. Sem a internet, sem o YouTube, ele teria demorado muito mais tempo para se tornar uma “arte pop”, mas o Parkour é tão fruto desse momento quanto a Lady Gaga ou qualquer outro artista ou movimento contemporâneo em seus quinze minutos de fama.

O Parkour está vivendo seu momento na frente dos holofotes (verdade que quase em decadência). Fato é que esse momento vem durando bem mais que quinze minutos. Desde que surgiram os primeiros filmes com a prática, do mais underground até o mais pop, o que é o caso do 13º Distrito e sua sequência que caíram no gosto popular e sabidamente fez com que muitos jovens iniciassem a pratica (afinal, muitos tracers hoje conhecidos e respeitados começaram após assistir a um desses filmes). Não podemos esquecer o destaque importante que o Parkour recebeu da rainha do pop (Madona) ao fazer um clipe com um dos maiores ícones da prática, Sebatien Foucan, o que acabou por abrir um leque de visibilidade para o mundo todo.

Não são poucas as inserções do Parkour nas artes cênicas, desde o cinema (com o 13º Distrito, 13º Distrito: Ultimato, Yamakasi: Os Samurais dos Tempos Modernos, Yamakasi: Filhos Do Vento, 007: Cassino Royale) e televisão (com os seriados, The Phantom e The Misfits,) ao teatro, dança e circo.

A espetacularização dessa arte logo se tornou pública e quando falo de espetacularização falo de Parkour nu e cru. Existem muitos artistas interessados nas possibilidades cênicas dessa prática (inclusive a pessoa que vos fala).

Nas artes cênicas existe uma busca incansável pelo novo, ou pela nova forma de se fazer o velho, e nesse contexto o Parkour é uma prática corporal extremamente artística, que possui variadas possibilidades, desde ser usada como meio para um treinamento específico de um ator ou dançarino, até ser usada como fim de uma performance dos mesmos.

A partir do momento em que enxergamos o Parkour como arte ele muda completamente de forma, (aqui cabe uma ressalva, qualquer coisa pode ser entendida como arte, desde que seja tratada como tal, lembremo-nos da privada de Duchamp). Pois, não necessariamente os atores, dançarinos, etc… ARTISTAS, o utilizarão para a vida, eles podem somente ser treinados para um fim específico, sem necessariamente “aprender” os conceitos filosóficos da prática em si.

É importante lembrar que, geralmente, antes de se fazer um filme, uma peça, um clipe, etc… Por via de regra, se faz uma pesquisa “aprofundada” de todos os elementos do mesmo. Então, raramente veremos o Parkour simplesmente como um apelo estético, mesmo que pareça isso à primeira vista. Obviamente que sabemos que existem pessoas que irão investir no Parkour porque sabem que tudo o que é pop gera público e conseqüentemente gera dinheiro (só tracer não ganha dinheiro com o Parkour, mas isso é assunto para outro texto).


Nem sempre (ou não na maioria das vezes) quando vemos o Parkour em algum filme, clipe, peça, ou seja lá o que for, ele vem com uma legenda dizendo “isso aqui é, isso aqui não é”. A arte busca a melhor forma de fazer, a melhor forma de mostrar e isso tende a um hibridismo muito forte, e, possivelmente, só as pessoas que já conhecem discernirão: “isso é Parkour, isso não é Parkour”. Então, é natural que um leigo, ao assistir a “13º Distrito”, diga que Jackie Chan já fazia isso, porque ele não entende o tecnicismo da pratica, e é bom que ele não entenda. Ele precisa ser encantado e tocado, o resto é bônus. Assim como se você não for um médico, dificilmente você vai entender a techné de um seriado que fala do dia a dia de médicos e seus pacientes. Obviamente que em alguns momentos podem existir erros grotescos, que nos fazem querer matar o diretor, pois nem sempre as pesquisas são bem feitas e muita coisa pode ser distorcida.

Pessoalmente, vejo com muito bons olhos a forma como a prática vem se tornando presente em diferentes mídias, é uma possibilidade de difundi-la e torná-la respeitada. Seria uma incoerência dizer que filmes como “13º Distrito”, jogos como Mirror’s Edge, clipes como o Jump da Madona, espetáculos como os do Cirque Du Soleil não contribuíram para o crescimento da prática, melhorando também a imagem dos praticantes. Se somos fruto do meio, que o meio continue dando bons frutos.

Existe vida além dos muros

18 jul

Existe vida além dos muros

Mudanças comportamentais são causadas por diferentes motivos, geralmente de tempos em tempos existe uma grande “onda” que influencia toda uma geração, desde a forma como se vestir até a maneira de falar. Os jovens tendem a ser os mais influenciados, pois frequentemente essa “onda” vem com uma ideia transgressora como o movimento punk, grunge ou hippie e, convenhamos que adolescentes buscam a transgressão com unhas e dentes. Entretanto, a partir dos anos 2000 essa transgressão mudou de forma e os jovens entraram numa linha de “serem puros para serem bons”, e é aí que entra o Parkour nessa história. Qualquer coisa pode influenciar no nosso comportamento, mas algumas podem modificá-lo para o resto da vida.

Quando começamos a praticar passamos a olhar o mundo de outra forma, é o momento da descoberta. Todo o meio à nossa volta muda, a arquitetura que antes tinha valor apenas estético/histórico passa a ser objeto de exploração.  Obstáculos tornam-se atrativos e os olhos brilham só de olhar para um simples corrimão. Esse primeiro momento tende a vir com uma busca por um estilo de vida mais saudável. Não são poucos os relatos de tracers que mudaram completamente as suas vidas por causa do Parkour, desde aqueles que pararam de beber, até os que pararam de fumar ou de comer carne. Os exemplos são muitos e de tipos bem variados. Essa busca por um equilíbrio entre corpo e mente gera tracers mais conscientes de si e do meio a sua volta.

Buscar clareza de sentidos, equilíbrio e força é extremamente importante nesse processo de descoberta, mas é fundamental que isso não vire uma obsessão e não entremos numa bolha, pois existe vida além dos muros e o Parkour pode até ser “uma forma de salvação”, mas não é a única. É bom lembrar que cada um tem o seu processo, que não necessariamente é o mais bonito ou saudável, mas que mesmo assim deve ser respeitado. Somos fruto daquilo que fazemos, dizemos e sentimos e no Parkour não é diferente. A forma como você se relaciona com a prática é a forma como a prática se relaciona com você.

Espero que essas mudanças que o Parkour vem causando perdurem e tornem-nos menos sedentários; ajudem-nos a enxergar o mundo sem tanto medo — fato que não vamos salvá-lo (pessoalmente não sei se algo um dia conseguirá essa proeza, sou pessimista demais para crer nisso), mas nada nos impede de tentar tonar as pessoas um pouco melhores para ele. Que essa “onda” torne-se um tsunami. Evoé!

Entrando na Rotina

9 jul


Diferenças culturais exercem grande influência na “evolução” dos tracers. Por que tendemos a achar que orientais fazem tudo melhor? Essa resposta costuma doer no nosso brio, mas ela é bem objetiva: Determinação e rotina. Pois é, nós brasileiros, culturalmente, temos o “hábito” de ser menos objetivos, tendemos a reclamar demais e fazer de menos. Crescimento e melhora são diretamente proporcionais à sua determinação e empenho para que isso aconteça. Então, tracers geralmente se empolgam muito no início, mas, com o decorrer do tempo, querem respostas imediatas, buscando o nosso clássico jeitinho. Só que, feliz ou infelizmente, não existe um jeitinho para tudo e, quando esse jeitinho existe, com ele vem o ônus.

Qual a diferença de um tracer, para um artista circense, ou um artista marcial? Em geral, apenas a prática em si é o que os difere, mas a entrega para ser bom em qualquer uma delas tem de ser real e “total” (entendendo total como dentro dos seus limites). Assim, vemos com frequência associações dessas práticas a religiões, o que alguns enxergam como verdadeiro exagero, entretanto, se pararmos para pensar um pouco, é apenas outra forma de enxergar a religião. Não estou falando daquela fé cega e sem reflexão, mas da dedicação e seriedade com que tratamos a prática em si. Tratar a prática de forma “religiosa” não significa tratá-la como religião, mas encará-la com religiosidade. Essa percepção é delicada e, muitas vezes, passa despercebida. Importante lembrar que isso não inviabiliza a ludicidade nem o hedonismo inerentes à prática, mas os encara de outra forma.

Respeitamos o outro, o nosso espaço de treino e o nosso corpo, que é o nosso templo, afinal, não existe mente sã sem corpo são e vice versa. Assim sendo, por que vemos uma dissociação da prática disso? Porque, de um modo generalista, os jovens vêm perdendo a noção do que é respeito a si e aos outros, buscando a prática apenas como mais uma forma de se sobressair.  Assim, vemos cada vez mais tracers de final de semana, sem entender o que estão fazendo ou por que estão fazendo, pois são apenas reprodutores de uma prática vazia, sem sentido, sem responsabilidade nenhuma com seu corpo ou com o dos outros, porque, além de praticarem, muitas vezes reproduzem um conhecimento que não têm, e o que vemos é uma sucessão de lesões cada vez piores, já que estão “todos” à procura do jeitinho, da forma mais fácil.  A arte do deslocamento, aos poucos vai se perdendo, deixando de ser “arte” para cada vez mais se tornar deslocamento e, na maioria das vezes, nem isso.

O problema é que esse perfil se reflete em todos os aspectos da cidadania do povo brasileiro (se é que sabemos, o que é cidadania). Somos reclamões, pois reclamamos de tudo: Dos políticos corruptos, do preço da gasolina, da cesta básica e em contrapartida estamos sempre atrás da maneira mais simples; reclamamos tanto, mas agimos da mesma forma. E estamos fazendo isso com o Parkour, sendo que, ao não fazermos nada, estamos criando uma ausência de futuro, ou, sem percebermos, a prática está evoluindo (entendendo evoluir no seu sentido literal, como mudança), só não posso afirmar que essa evolução é para melhor ou para pior. Se existe uma solução pra isso, sugiro que deixemos essa preguiça de lado, pois nem toda rotina é ruim e, ao nos organizarmos estamos criando talvez um futuro melhor.

Esse comodismo brasileiro não surgiu do nada, não somos incentivados a pensar. A educação depois do golpe militar até hoje não conseguiu se reestruturar. Vivemos em um país de analfabetos funcionais, não temos criticismo e estamos ficando cada vez mais obesos. A educação esportiva no Brasil soa como piada. Lá fora você tem educação em tempo integral, as crianças são obrigadas a fazer algum esporte. E aqui? Jogam uma bola no meio da quadra (quando tem quadra) e apitam um babinha. Enfim, é obvio que o problema é muito mais profundo, mas não adianta só ficarmos confortáveis nas nossas poltronas pontuando os problemas. É hora de arregaçarmos as mangas e começarmos a resolver.


De mulher pra mulher…

29 jun

fotos de girlparkour.com

Recentemente levantei uma breve pesquisa sobre as mulheres que treinam Parkour e há quanto tempo treinam. Pesquisei sobre o índice de evasão e, o que pude perceber é que existe muito folclore sobre o tema de um modo geral.

Primeiro: mulheres deixam a prática tanto quanto homens, a diferença crucial é que como existem menos mulheres que treinam, ao sair uma mulher, temos a impressão de que a evasão foi muito maior. Mas por que temos tão poucas mulheres treinando?

“Iniciar no Parkour é fácil, o difícil é continuar” — Isso todo mundo já sabe. O que difere entre homens e mulheres é que é a verdadeira questão. De um modo geral, temos uma pequena diferença no perfil dos praticantes. Mulheres tendem a começar com um pouco mais de idade, em torno dos 17 aos 19 anos no mínimo, enquanto homens geralmente começam mais novos, por volta dos 14, 15 anos. Você deve estar se perguntando: E daí? Pois bem, essa sutil diferença muda quase tudo. Com mais idade as prioridades são outras, como faculdade, trabalho, filhos… Isso gera um desgaste e reduz demasiadamente o tempo. Dessa forma, para vingar nos treinos é preciso muito mais do que habilidades corporais. É necessário ter muita força de vontade.

Outro ponto forte para a desistência de algumas mulheres é uma constante queixa de preconceito e assédio por parte dos garotos. Esse ponto em especial, apesar de delicado é raríssimo, pois, geralmente, as mulheres são muito bem recebidas e incentivadas a continuar e, apesar de existirem histórias, não conheço nenhum caso de preconceito explicito, pelo menos não por causa do sexo do praticante. O que vejo é muita menina preguiçosa jogando a culpa nos garotos para parar de treinar.

Todo primeiro passo é difícil e geralmente leva ao chão. A questão é saber levantar, porque o caminho é tortuoso e temperado com pedregulhos. Portanto, salte.

fotos de girlparkour.com

Há algum tempo vem ocorrendo iniciativas de meninas de diversas partes do Brasil e de fora dele a fim de difundir o Parkour feminino, incentivando garotas a começar a treinar e dando suporte para as que já treinam conseguirem se desenvolver na prática. Essas iniciativas são de grande valia para a difusão da cena do Parkour como um todo, entretanto, existe uma tendência sexista de alguns desses grupos que tendem a superiorizar a imagem do Parkour feminino. É importante saber que existem mulheres que treinam, só temos que tomar cuidado, pois, não nos tornamos mais especiais porque treinamos, nem estamos numa competição contra os meninos. Na verdade, todos fazem parte desse todo que quer ver o Parkour se desenvolvendo e ganhando cada vez mais espaço e adeptos pelo mundo, independe de sexo.

Às vezes estamos tão inseridos no meio que nem percebemos que fazemos essas separações (deixando claro que necessidades especiais devem ser superadas). Não precisamos criar mais barreiras do que as que já existem pelo mundo. Afinal, o Parkour é uma prática que preza pela união e não o contrário.