O que te faz pular?
13 jul
Tem aproximadamente dois anos que vou pelo menos uma vez por mês a um lugar onde eu sempre treino perto da minha casa. Desde que diminui meu ritmo de treinos perdi a coragem de fazer um Saut de Bras/Cat leap que sempre fiz com muita facilidade, inclusive quando “descobrimos” este salto eu fui o primeiro a fazer com muita confiança e sangue no olho.
Nesses dois últimos anos eu praticamente perdi a coragem para fazer esse salto, nunca tinha aquela vontade de fazer, nada me fazia pular daquele muro. O salto era de um muro para o outro no mesmo nível, nada de complicado, nada de difícil nisso. Eu simplesmente não me senti apto a fazer.
Enquanto eu parava para analisar o salto eu via minha mão escorregando do outro lado. Conseguia até sentir os cortes nos dedos causados pelas pedrinhas do muro chapiscado. Imaginava que era pesado demais para aquela parede, e que provavelmente o muro ia ceder quando eu segurasse do outro lado. Eu pendurava, balançava e testava tudo. Tentava me assegurar de era seguro e que não me machucaria. Pensava em todas as possibilidades de falha do salto, tudo que poderia dar errado, eu estava com medo.
Comecei fazendo de uma lateral poucos centímetros mais perto do que o salto que eu verdadeiramente queria fazer, mas nada disso funcionava. Passei quase dois anos com esse medo e pensando que não tinha motivos para fazer o salto, não valia o risco.
Nesse domingo fui ao parque com um amigo e acabamos treinando alguns saut de bras em outro ponto, então fomos para o salto que eu tinha tanto medo de fazer. Ficamos lá pensando e conversando. Então coloquei a meta de que faria aquele salto de novo em um mês. Voltaria aos meus treinos regulares, recuperaria minha confiança e faria. Ele riu de mim e disse “achei que faria hoje”.
Ficamos por volta de 30 minutos discutindo sobre o salto e os motivos que eu achava que não conseguiria faze-lo. Depois de muito conversar ele decidiu que tentaria. Fiquei feliz por ele tomar essa iniciativa e disse que provavelmente tentaria se ele tentasse. Eu não achava que ele iria tentar.
Fui lá para baixo ficar aparando a queda para caso acabasse dando errado. Ficamos lá um bom tempo e eu bem confiante de que ele não tentaria, e eu iria pra casa engolindo minha vergonha e meu medo, eu estava virando um bundão. No momento eu não estava racionalizando comigo mesmo o motivo de não querer fazer, eu só achava que iria me machucar.
Quando menos esperava, o Wendely saltou e a mão dele não fixou na parede e ele deslizou. Achei que ele não fosse tentar de novo. Subiu no muro, pensou por mais alguns minutos e saltou, agora conseguindo. Ficou brincando comigo, e então eu teria que tentar o salto como combinado.
Subi para avaliar a possibilidade, fiquei rindo falando que não faria. Perguntei até como eu poderia pagar o combinado de outra forma. Fiz todas essas brincadeiras de quando não temos culhões para fazer o que prometemos. Fiz alguns testes, pulei da lateral, desci e subi. Testei o muro e fiquei parado olhando para o muro por um bom tempo. Até que parei de rir.
Parei para pensar de verdade no salto. Em como eu fazia tantos saltos antes e agora estava com medo. Em toda atitude que sempre tive, em toda coragem e sangue no olho. Pensei em todos os treinos que fiz nesses oito anos e na capacidade física que tenho. Pensei em todo o preparo e quantas coisas mais difíceis já tinha feito. Parei para pensar que eu não conseguiria lidar novamente comigo mesmo. Mais difícil do que lidar com os amigos fazendo brincadeiras, com um ralado ou uma queda, é a vergonha de não ter nem tentado. Quando percebi, estava novamente decidido a fazer o salto. Só precisava considerar algumas coisas e fazer, era isso. Sequei minhas mãos que já estavam suadas na calça, e tirei a poeira do tênis.
Enquanto respirava olhava fixamente para onde minhas mãos deveriam pegar, o suor já pingava e meu coração batia acelerado. De repente como de forma inesperada eu olhei para o outro lado e vi minhas mãos chegando, assim eu pulei.
Cheguei do outro lado de forma firme, os pés cravaram no muro e as mãos também, e em menos de um segundo já estava sentado no muro sorrindo, com a mente vazia e o coração limpo. Um sentimento de emoção e conquista que eu não me proporcionava através do Parkour há muito tempo agora tomava conta de mim. Nesses últimos dois anos que vim treinando esporadicamente só para não perder algumas habilidades eu tinha esquecido como eu podia me desafiar e me sentir bem com o parkour.
O que me fez pular foi não conseguir lidar com a vergonha, com o meu ego, comigo mesmo. Saber que foi vencido por algo que não existe e que está só na sua cabeça. Ao contrário da luta que você da a cara a tapa, bate e apanha, ganha e perde, sendo que isso não depende só de você é uma coisa. Perder para você mesmo é algo que eu realmente não soube e não sei lidar. Isso é o que me empurra, é o que me faz continuar.
Conforme ficamos mais velhos o nosso medo aumenta. Cada erro pode significar uma perda maior. Um braço quebrado representa faltar no trabalho e o risco de perder o emprego. Qualquer errinho pode representar todo seu mundo indo por agua abaixo. O que me faz pular é a confiança nas minhas habilidades e no meu treino, a vontade de mostrar pra mim mesmo que sou capaz e que eu posso.
Pessoas têm motivos diferentes para fazer as coisas. Quando você está lá no alto daquele muro pronto para fazer um salto perigoso que nunca fez antes, o que te motiva? O que faz você pular?
Depois que fiz o primeiro salto, fiz várias e várias outras vezes, como se fizesse isso desde sempre, sem medo e sem preocupações. Vai entender. O Wendely sempre repetindo “quem vê você fazendo agora, não acreditaria no que eu vi”. O do vídeo obviamente não é o primeiro salto, mas é para ilustrar o dia e o momento.





Ótimo texto Alberto, retratou muito bem essa emoção que sentimos ao nos depararmos com esse conflito :/
Mas é extremamente gratificante quando conseguimos.Parabéns pela evolução!
Bons treinos!
Beto. Quando você me mostrou aquele salto, não fiquei surpreso com o fato de você ter feito novamente. Não sei com quantas chaves você guarda o parkour, ou quanto tempo você leva para destrancar (como fez nesse domingo), mas sei que guarda esse “tesouro” em algum santuário aí dentro amigo!
Você bem sabe que o tenho como primeiro “Mestre”.
Forte Abraço Beto!
Eu? Bom.. o que me faz pular é segurança. Nesse caso, foi a segurança de muitos outros saut de bras somada a resposta da pergunta que fiz pra você: “e aí, eu pulo?”. Você disse que sim. A confiança que faltava.
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Quando eu perguntei se você iria se eu fosse, eu acreditei na resposta, mas acreditei mais ainda quando você disse que não iria (depois de eu ter ido). Mais importante que ego ou honra é respeito. Por isso nem zoei nessa hora, só me espantei e depois disse pra pensar como você pagaria. Era melhor não ir do que se machucar… não por incapacidade física ou técnica, mas acreditar é importante.
Nunca tive coragem de fazer esse salto e nesse dia, depois de tanto tempo sem treinar e me recuperando de vários traumas (físicos) essa sensação de vitória foi foda. Valeu!
P.s.: prefiro esse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=sMCRanOBviU
Quando fixo o ponto-alvo a frente procuro me concentrar até sentir o mundo ao redor “desaparecer” ai começa um confronto interno de MEDO, CORPO e MUNDO X VONTADE, O medo tentando me impedir, meu corpo tentando não me obedecer e o mundo ao redor tentando reaparecer para mostrar que eu não fiz o que tinha Vontade.
Quando a batalha termina vitoriosa para minha vontade ela comemora dizendo “agora” dentro da minha cabeça, e então o salto se torna uma forma de expressar minha vontade, essa vontade é a de olhar pra traz e dizer pro meu medo “Você não vai me vencer”, vontade de Olhar pro meu corpo e dizer “Você fez bem o que devia ter feito”, vontade de olhar pro mundo ao redor que reapareceu e parece muito mais agradável porque agora eu sou alguém mais forte e dizer “Eu consegui”.
O que me faz pular é a força da minha vontade!
Texto foda Beto, mesmo não sendo o primeiro salto no vídeo (principalmente o que o Wendely postou) dá pra sentir a sua felicidade! Isso é a verdadeira recompensa do parkour!
POOORRRRAAAA!
isso.
Fase normal no caminho do traceur. Fico feliz por você ter compartilhado isso no blog, com humilde, sem marra. Pra mim essa atitude valeu mais que o salto. Tenho certeza que você vai lembrar dessa lição por um bom tempo.
Parabéns pela reconquista do salto também, claro. Sugiro que mantenha o momentum de “break the jumps”.
Bons treinos.
Sem palavras. Meu coração acelerou junto com o seu no texto!
Talvez por me identificar muito na fase que estou passando no parkour.
Parabens. Abraço.
As vezes qualquer errinho pode representar o mundo de muita gente indo por agua a baixo, o mundo dos familiares, dos amigos, dos parceraços de treino…enfim…
otimo texto cara! é importante se ter um motivo e principalmente avaliar se tal motivação é pura e verdadeira pra si mesmo…muitas pessoas tem como motivo a vergonha dos parceiros de treino ou como motivo só aparecer e acabam na verdade se arriscando…como vc já havia feito o salto e tem muita experiencia nao foi o caso, mas pessoalmente vejo muita gente pulando porque todos pularam…a futilidade no parkour é perigosa quando se trata do motivo de se realizar determinado movimento…
Abs! bons treinos!
Conseguiu descrever tudo que passa na nossa cabeça quando estamos com medo!
Continue postando!
Parabéns rapaz!
Relato foda, parabéns aew!
Meu ja passei por isso tbm, me identifiquei demais com seu texto vlw. e parabens por vencer seu medo e fazer essa conquista,pra mim não tem anda melhor do que vencer um desafio no parkour. é uma sensação unica. parabens pelo texto, pelo blog, você vive me inspirando obrigado por isso.
mano parabéns por ter vencido esse bloqueio, e de feito o cat
gostei muito do texto! parabéns.. isso aê
Eu tava precisando disso. Vc sabe né? Relato perfeito. E o sorriso sincero no final foi LINDO. Ate isso retrata a alegria de um tracer em pular.
O que me faz pular? Isso aí mesmo. A superação e ‘re-superação’ dos obstáculos/bloqueios.
PQP, FODA HEIN?! É isso que eu gosto de ler e o tipo de conteúdo que se deve transmitir em massa. Cara muito bem escrito, me senti lá com você e obviamente me identifiquei com todo o processo! Bem vivido e bem escrito. Como o racha falou, continue com o “break the jumps”!
Cara, muito bom o texto. Parabéns.
Estou passando por algo parecido desde semana passada, com um precisão que sempre fiz mas não sei porque me deu um medo e simplesmente travei.
Acredito mesmo que esse lance é totalmente psicológico, já que no fundo você sabe como fazer o movimento e ainda por cima já fez outras vezes exatamente no mesmo lugar. Você fica pensando “E se eu errar?” “E se eu não pegar direito?” “E se eu me desconcentrar no meio do salto?” E se…” e ai não consegue nada, como se fosse o primeiro salto.
Mais uma vez parabéns pelo post!
Bons treinos
Velho, sem palavras mesmo!
Meu coração acelerou junto lendo o texto!
Parabens
Abraço
meio tarde pra comentar mas, para mim a maior motivação pra um salto é eu mesmo, porque, se eu “arrego” eu fico, 1 noite, 2 noites, 3 noites, pensando naquele maldito salto, com aquele pensamento de, eu consigo, só estou com medo.
Com o skate é quase a mesma coisa, eu pra começar a “varar” pular escadas. Fiquei uns 10minutos olhando assim pra escada com o skate no pé, fui até a borda dela, fui com o skate e parei na ponta e fiquei olhando, até a hora que tentei, bom nem preciso dizer que falhou mas, uaehauehae, depois da 1ªtentativa é ir até acertar.
E voltando ao parkour hehehe, acho que a sensação de estar bem com si mesmo após aquele salto que você ficou “namorando” por um bom tempo, é a melhor parte, ou até mesmo você tentar, mas não conseguir, cair, se levantar, subir no muro e continuar tentando até acertar, quando acertar aquela primeira vez, da uma sensação de alivio
E o Grande ABC se diferencia de forma prática primeiramente acolhendo indústria, depois com recursos humanos e agora dá esse novo salto, de inova